Crescimento populacional dos EUA atinge queda histórica em 2024-2025
O Departamento do Censo dos Estados Unidos divulgou estimativas que revelam uma queda histórica no crescimento da população americana. Entre julho de 2024 e junho de 2025, a taxa de crescimento caiu para 0,5%, configurando-se como uma das mais baixas registradas desde o início do século XX.
Comparação com períodos históricos
Para contextualizar essa desaceleração, é importante observar a trajetória populacional dos EUA ao longo das décadas:
- Durante o Baby Boom dos anos 1950, a taxa média de crescimento foi de 1,8% ao ano
- Na década de 1990, esse ritmo diminuiu para 1,2%
- Na primeira década do século XXI, a taxa caiu para 1%
- Durante a pandemia de covid-19, em 2021, o crescimento atingiu apenas 0,2%
Desde 1900, houve apenas um período registrado de declínio populacional absoluto nos Estados Unidos: entre julho de 1917 e junho de 1918, quando a população diminuiu em aproximadamente 60 mil pessoas (equivalente a 0,06% da população da época). Essa redução foi resultado da combinação incomum de três fatores: mortes causadas pela pandemia da gripe espanhola, baixas da Primeira Guerra Mundial e queda temporária na taxa de natalidade.
Migração internacional como fator determinante
Christine Hartley, diretora adjunta da Divisão de Estimativas e Projeções do Departamento do Censo, explicou em comunicado à imprensa que "com os índices de natalidade e mortalidade permanecendo relativamente estáveis em comparação com o ano anterior, a acentuada queda na migração internacional líquida é a principal razão para a taxa de crescimento mais lenta que estamos observando hoje".
A migração internacional líquida — resultado da subtração do número de emigrantes (pessoas que saem do país) do número de imigrantes (pessoas que entram) — caiu drasticamente:
- Entre 2023 e 2024: 2,7 milhões
- Entre 2024 e 2025: 1,3 milhão
William Frey, pesquisador sênior especializado em demografia da Brookings Institution, destaca que mesmo o número de 1,3 milhão representa um valor elevado quando comparado aos padrões históricos, mas a tendência é de queda contínua nos próximos anos.
Políticas migratórias e seus impactos
Desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, o governo americano implementou diversas medidas restritivas que afetam diretamente os fluxos migratórios:
- Endurecimento dos requisitos para emissão de vistos de estudante e trabalho
- Restrição do processo de solicitação de asilo ou status de refugiado
- Campanha de deportação contra migrantes indocumentados
- Revogação de proteções temporárias concedidas durante o governo Biden
As estatísticas oficiais refletem essa mudança. De acordo com dados da agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras, o número de "encontros" (contatos com estrangeiros que tentam entrar no país sem atender aos critérios exigidos) em fevereiro de 2025 foi de 28.613, representando uma queda de pouco mais de 12% em comparação com o mesmo mês de 2024.
Consequências econômicas e demográficas
A análise do Departamento do Censo indica que os EUA estão caminhando para uma migração internacional líquida negativa, situação em que mais pessoas deixam o país do que entram — algo que não acontecia desde 1971. Especialistas da Brookings Institution estimam que isso já pode ter ocorrido em 2025.
As implicações econômicas são significativas:
- Desaceleração no crescimento do emprego
- Redução do consumo entre US$ 60 bilhões e US$ 110 bilhões ao longo de dois anos
- Enfraquecimento do crescimento do PIB
William Frey alerta ainda para as consequências demográficas: "A contínua redução da taxa de imigração resultará em uma população americana menor e mais idosa". Ele destaca que aproximadamente 28% dos menores de 18 anos nos EUA são imigrantes ou filhos de imigrantes nascidos no país, e que a redução da imigração acelerará o declínio dessa população jovem.
Perspectivas para o futuro
O especialista enfatiza o papel histórico da imigração no desenvolvimento dos Estados Unidos: "Algumas pessoas não gostam de ouvir isso às vezes, mas nós realmente ainda somos uma nação de imigrantes. Foi isso que nos tornou bem-sucedidos durante nossos melhores anos".
Frey conclui com uma reflexão sobre o futuro: "Se tivermos que olhar para um futuro onde não somos mais uma nação de imigrantes, onde a população cresce ainda mais lentamente e envelhece ainda mais rápido, acho que isso não nos ajudará economicamente, nem como uma grande potência, a nos conectar bem com outras partes do mundo".
A situação atual representa um ponto de inflexão na trajetória demográfica dos Estados Unidos, com implicações que se estenderão por décadas e afetarão múltiplas dimensões da sociedade americana.



