Coreia do Sul celebra aumento na natalidade, mas crise demográfica persiste
A Coreia do Sul registrou em 2025 um aumento significativo em sua taxa de natalidade, marcando o segundo ano consecutivo de crescimento após uma prolongada tendência de queda que colocava o país em uma das crises demográficas mais graves do mundo. Dados oficiais divulgados pelo governo sul-coreano revelam que a taxa de fecundidade total, que representa o número médio de filhos que uma mulher terá ao longo da vida, subiu para 0,80 no ano passado, contra 0,75 em 2024 e o mínimo histórico de 0,72 registrado em 2023.
Números que animam, mas não resolvem
O total de nascimentos atingiu a marca de 254,5 mil em 2025, representando uma alta expressiva de 6,8% em relação ao ano anterior e o maior número desde 2021. Apesar desse avanço comemorado pelas autoridades, o índice ainda permanece muito abaixo do nível de reposição populacional, estimado em 2,1 filhos por mulher, sendo insuficiente para manter o tamanho da população sem a entrada de imigrantes.
Especialistas em demografia destacam que o aumento recente está ligado a dois fatores principais que criaram uma conjuntura favorável. Primeiro, a recuperação nas taxas de casamento após a pandemia de COVID-19, que trouxe maior estabilidade social e favoreceu decisões de planejamento familiar. Segundo, a presença de uma coorte relativamente grande de mulheres nascidas no início dos anos 1990, que agora se encontram na faixa etária de maior fertilidade.
Alerta dos especialistas
Pesquisadores alertam, no entanto, que mulheres nascidas nos anos 2000 formam um grupo demográfico significativamente menor. Isso significa que, mesmo com um aumento projetado da taxa para 1,27 no médio prazo, conforme estimativas do governo, a população sul-coreana deve cair cerca de 10 milhões até 2067, evidenciando que a elevação temporária dos nascimentos não reverte a trajetória estrutural de declínio populacional.
O aumento nos nascimentos também se reflete em mudanças de comportamento social que estão gradualmente transformando a sociedade sul-coreana. A percepção sobre casamento e maternidade tem se tornado mais positiva entre os jovens, e a aceitação de filhos fora do casamento, historicamente considerado um tabu cultural, cresceu ligeiramente. Em 2024, 5,8% das crianças nasceram fora da união formal, contra 4,7% no ano anterior.
Desafios estruturais persistentes
Ainda assim, desafios estruturais profundos continuam a desincentivar a formação de famílias maiores:
- Altos custos de moradia nas principais cidades
- Insegurança no mercado de trabalho para jovens profissionais
- Urbanização intensa que concentra oportunidades em poucas regiões
- Cultura de maternidade exigente que sobrecarrega as mulheres
- Competitividade escolar extrema desde a primeira infância
Esses fatores combinados levam muitos jovens sul-coreanos a adiar decisões sobre casamento e filhos ou a optar por ter menos crianças do que desejariam em condições ideais.
Políticas governamentais de incentivo
O governo sul-coreano tem implementado um pacote abrangente de políticas para incentivar a natalidade, incluindo:
- Benefícios mensais em dinheiro para famílias com recém-nascidos
- Expansão significativa de serviços públicos de cuidado infantil
- Licenças parentais ampliadas para mães e pais
- Subsídios governamentais para tratamentos de fertilização in vitro
- Incentivos fiscais específicos para jovens casais
- Programas de apoio habitacional com condições facilitadas
Apesar desses esforços, o número de mortes continua superando o de nascimentos desde 2020, consolidando a Coreia do Sul como uma sociedade classificada como "superenvelhecida", com aproximadamente 21% da população com 65 anos ou mais.
Impacto na previdência e futuro incerto
O impacto sobre o sistema de previdência social é significativo e preocupante. Considerando as projeções atuais, o National Pension Service, terceiro maior fundo de pensão do mundo, deve se esgotar completamente até 2065 se a tendência demográfica persistir sem mudanças estruturais.
Demógrafos alertam que o aumento recente na natalidade é temporário e que a população poderá enfrentar um novo "penhasco" demográfico na década de 2030, quando a coorte de mulheres em idade fértil diminuir drasticamente devido ao baixo número de nascimentos nas gerações anteriores.
Para sustentar o país economicamente e socialmente no longo prazo, especialistas defendem que a Coreia do Sul precise preparar-se para políticas de imigração mais amplas e estruturas que permitam que a população de meia-idade e idosos permaneça economicamente ativa por mais tempo. Além disso, exigem soluções integradas que combinem planejamento urbano mais equilibrado, políticas trabalhistas mais seguras e suporte familiar abrangente para enfrentar os múltiplos fatores que continuam a desincentivar a maternidade na sociedade sul-coreana contemporânea.



