A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um documento histórico: a primeira diretriz global inteiramente dedicada ao tema da infertilidade. Publicado recentemente, o guia estabelece padrões internacionais para prevenção, diagnóstico e tratamento, reconhecendo oficialmente a condição como um problema de saúde pública mundial.
Um problema de saúde pública e equidade
Os números apresentados pela OMS são impactantes: a infertilidade afeta uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva ao redor do globo. Apesar dessa alta prevalência, o acesso aos cuidados necessários é marcado por profundas desigualdades. A diretriz salienta que, em diversas regiões, o custo de um único ciclo de fertilização in vitro (FIV) pode equivaler ao dobro da renda anual de uma família, tornando o sonho da parentalidade inacessível para milhões.
O documento da OMS vai além da visão puramente clínica. Ele reforça que a infertilidade é também uma questão de direitos reprodutivos e equidade. Pela primeira vez, os países recebem um padrão global para garantir um acesso justo e baseado em evidências científicas para todos que desejam constituir família.
Impacto vai além do físico
A diretriz define infertilidade como a incapacidade de alcançar uma gravidez após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares sem proteção. No entanto, destaca que a condição carrega um pesado fardo psicológico, social e financeiro, frequentemente acompanhado de estigma e sofrimento emocional para os indivíduos e casais.
Rodrigo Rosa, ginecologista obstetra especialista em Reprodução Humana e sócio-fundador da clínica Mater Prime, em São Paulo, enfatiza a importância do marco. "Estamos diante de um documento que pode transformar a vida de milhões de pessoas. Se aplicado corretamente, ele democratiza o acesso e devolve às pessoas o direito de decidir quando e como ter filhos", afirma o especialista, que também é colaborador do livro “Atlas de Reprodução Humana”.
Prevenção e caminho do tratamento
A nova diretriz aponta a prevenção como uma estratégia fundamental, especialmente em nível populacional. Entre as medidas recomendadas estão:
- Educação sobre fertilidade desde a adolescência, abordando fatores como idade, hábitos de vida e tabagismo.
- Aconselhamento sobre estilo de vida saudável para casais que planejam engravidar.
- Fortalecimento global dos programas de prevenção a Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), uma das principais causas evitáveis de infertilidade, especialmente a tubária.
No campo do diagnóstico, o documento descreve protocolos para investigar as causas biológicas comuns, tanto na infertilidade masculina quanto na feminina. Já no tratamento, a OMS orienta uma abordagem progressiva:
- Estratégias iniciais de manejo, como aconselhamento sobre períodos férteis.
- Promoção da fertilidade sem intervenção ativa imediata.
- Avanço para tratamentos como inseminação intrauterina.
- E, finalmente, técnicas de alta complexidade, como a fertilização in vitro (FIV).
O desafio da implementação nacional
Para que as diretrizes saiam do papel, a OMS recomenda que os países adaptem as orientações à sua realidade local e as integrem às políticas nacionais de saúde. Isso envolve uma série de ações concretas:
Incluir o diagnóstico e o tratamento da infertilidade nos sistemas públicos de saúde. Capacitar profissionais da atenção primária para lidar com o tema. Monitorar resultados e desigualdades no acesso aos serviços. Fortalecer políticas de direitos reprodutivos e combater o estigma social associado à condição.
A publicação desta diretriz global é um passo crucial para colocar a infertilidade na agenda prioritária da saúde pública, visando reduzir o sofrimento e garantir que o direito à parentalidade seja uma opção real para todos, independentemente de sua condição financeira ou localização geográfica.