Nomofobia, tech neck e mais: os riscos das novas doenças digitais no Brasil
Nomofobia e tech neck: riscos das doenças digitais no Brasil

Nomofobia, tech neck e mais: os riscos das novas doenças digitais no Brasil

O uso intensivo de celulares, redes sociais e jogos digitais ultrapassou a esfera comportamental para se tornar uma preocupação central da saúde mental. Em um país onde o tempo online alcança aproximadamente nove horas por dia – uma das médias mais elevadas do mundo –, profissionais de saúde começam a identificar um conjunto alarmante de sintomas e padrões associados ao excesso de exposição às telas.

O alerta dos especialistas

A psiquiatra Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), está entre os profissionais que direcionaram sua atenção para os impactos dos dispositivos digitais. Após décadas dedicadas ao estudo do comportamento humano, ela observa como esses aparelhos estão moldando hábitos e relações interpessoais de forma profunda.

A especialista reuniu colegas psiquiatras para promover um diálogo amplo sobre o tema. Embora não se trate de uma pesquisa científica formal, nem de condições oficialmente validadas, são percepções recorrentes na prática clínica diária. A única exceção é a dependência de videogames, reconhecida formalmente como um transtorno pela comunidade médica internacional.

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Principais fenômenos digitais preocupantes

Dependência de jogos eletrônicos: Reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e incluído na CID-11, este transtorno se caracteriza pela perda total de controle sobre o tempo dedicado às partidas. A pessoa passa a priorizar o jogo em detrimento de trabalho, estudos e relações pessoais. Estima-se que cerca de 3% dos jogadores se enquadrem nesse quadro. O tratamento envolve psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, e, em alguns casos, medicação específica.

FOMO (Fear of Missing Out): Esta sigla representa o medo constante de ficar por fora das atualizações. As redes sociais, com suas postagens incessantes da vida alheia, funcionam como gatilho poderoso para comparações sociais e sensação aguda de inadequação. O resultado frequente é ansiedade persistente e dificuldade extrema de se desconectar dos ambientes digitais.

JOMO (Joy of Missing Out): Na contramão do fenômeno anterior, esta expressão descreve o prazer genuíno de não acompanhar tudo que acontece online. Pessoas que reduzem conscientemente o uso das redes sociais relatam níveis mais elevados de bem-estar e menos pressão social. O desafio, segundo os especialistas, está em substituir o tempo online por atividades significativas fora do universo digital.

Nomofobia: A simples ideia de ficar sem o aparelho celular, seja por falta de bateria ou conexão, pode desencadear sintomas físicos intensos como taquicardia, sudorese excessiva e ansiedade paralisante. Embora não seja um diagnóstico formalmente reconhecido, o quadro se assemelha clinicamente a outras fobias específicas.

Selfitis: O impulso compulsivo de tirar e publicar selfies tem sido estudado como um comportamento profundamente ligado à autoestima e à busca incessante por validação social. Em níveis mais avançados, pode indicar sofrimento psicológico significativo que requer atenção profissional.

Phubbing: Esta mistura de phone (telefone) e snubbing (esnobar) descreve uma cena cada vez mais comum nas interações sociais: alguém fisicamente presente, mas completamente absorvido pela tela do celular. O hábito afeta drasticamente a qualidade das relações interpessoais e a profundidade das conexões humanas.

Outras condições digitais emergentes

Dependência digital ampliada: Além dos jogos específicos, o uso abusivo de tecnologia como um todo também pode se tornar comportamento compulsivo. Ainda sem reconhecimento formal, este padrão envolve prejuízos concretos à rotina diária, à qualidade do sono e à saúde mental geral.

Síndrome do texto fantasma: Ser ignorado em conversas digitais – o chamado ghosting – pode gerar angústia profunda e insegurança relacional. A ausência de resposta alimenta dúvidas constantes e ansiedade generalizada, especialmente em contextos afetivos e emocionais.

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Cibercondria: Pesquisar sintomas de saúde na internet pode escalar rapidamente para um ciclo vicioso de preocupação excessiva. A pessoa passa a acreditar firmemente que tem doenças graves sem qualquer confirmação médica, o que aumenta exponencialmente os níveis de ansiedade.

Fadiga de decisão digital: Notificações incessantes, mensagens contínuas e conteúdos infinitos disputam atenção constantemente. Este excesso de estímulos digitais leva a um cansaço mental crônico que prejudica significativamente a capacidade de tomar decisões – incluindo as mais simples do cotidiano.

Impactos físicos do excesso de telas

Não é apenas a saúde mental que paga o preço do uso excessivo de dispositivos digitais. O corpo humano também sofre consequências graves e mensuráveis. A rotina cada vez mais colada nas telas já foi cientificamente associada ao avanço acelerado da miopia – com projeções alarmantes indicando que metade da população mundial precisará de óculos até 2050.

O sedentarismo decorrente do uso prolongado representa peça-chave na epidemia global de obesidade, enquanto uma lista crescente de dores musculares e problemas posturais preocupa especialistas em saúde ocupacional e fisioterapia.

Text neck ou tech neck: A cena tornou-se dolorosamente familiar: cabeça baixa, ombros curvados para a frente e olhos fixamente grudados na tela do celular. É desta combinação postural que nasce o chamado text neck ou tech neck, termo médico usado para descrever a sobrecarga mecânica no pescoço provocada por horas mantendo esta posição inadequada.

O problema é consideravelmente mais sério do que aparenta. Com o corpo em posição ereta, a cabeça humana pesa aproximadamente 5 quilos. Porém, à medida que se inclina para frente para visualizar a tela, esta carga aumenta dramaticamente sobre toda a região cervical. Repetido inúmeras vezes ao longo do dia, este movimento pressiona articulações, músculos e ligamentos, podendo irradiar dor intensa para ombros, costas, punhos e até mesmo as mãos.

Na prática clínica, o celular deixa de ser apenas um hábito cultural e passa a funcionar como gatilho direto para desconfortos persistentes – daqueles que vão se acumulando silenciosamente até se transformarem em dor crônica debilitante. E, não raramente, estes problemas atingem justamente quem mais utiliza os aparelhos: os dedos que literalmente não saem das telas touchscreen.

Além destas condições específicas, existem diversos outros problemas de saúde associados ao excesso de exposição às telas digitais. A conscientização sobre estes riscos representa o primeiro passo fundamental para desenvolver hábitos digitais mais saudáveis e equilibrados.