Um projeto pioneiro em Recife, capital de Pernambuco, está utilizando a inteligência artificial como uma poderosa aliada na prevenção de acidentes vasculares cerebrais, os populares derrames. A iniciativa, que já analisou cerca de 4 mil eletrocardiogramas, tem como foco a detecção precoce da fibrilação atrial, um tipo de arritmia cardíaca considerada um "inimigo silencioso" por frequentemente não apresentar sintomas.
O elo perigoso entre a arritmia e o derrame
A fibrilação atrial é responsável por aproximadamente 20% dos AVCs isquêmicos. A cardiologista Tieta Albanez, líder do projeto em Recife, explica o mecanismo: a arritmia faz com que o coração bombeie sangue com menos eficiência, o que pode levar ao acúmulo de sangue no átrio esquerdo e à formação de coágulos (trombos). Esses coágulos podem se desprender e, ao chegarem ao cérebro, obstruir vasos sanguíneos, interrompendo o fluxo de oxigênio e causando o derrame.
O diagnóstico tradicional é feito por meio do eletrocardiograma (ECG), mas a interpretação do exame nem sempre é simples. Estimas do projeto indicam que 84% dos médicos relatam desconforto ao analisar um ECG, o que pode levar a muitos casos da arritmia passarem despercebidos. É justamente nesse ponto que a tecnologia entra para fazer a diferença.
Como a inteligência artificial atua na detecção
A plataforma utilizada, chamada Kardia da empresa Neomed, emprega nove algoritmos clínicos para analisar cada traçado de eletrocardiograma. A velocidade é impressionante: cerca de sete segundos para gerar um laudo preliminar. "A tecnologia dá o laudo. O médico confirma", resume a Dra. Tieta Albanez.
Entre outubro de 2024 e abril de 2025, o sistema foi utilizado em 3.933 exames realizados em hospitais da rede privada de Recife. Desse total, 48 casos de fibrilação atrial foram identificados – condições que, de outra forma, poderiam ter permanecido ocultas. "A gente aumentou muito o diagnóstico dessa arritmia, que antes passava despercebida", comemora a cardiologista.
Do diagnóstico ao tratamento: o implante que protege o coração
Identificar o problema cedo é apenas o primeiro passo. O tratamento padrão para prevenir o AVC em pacientes com fibrilação atrial muitas vezes envolve o uso de anticoagulantes. No entanto, alguns pacientes têm contraindicações devido a riscos de sangramento.
Para esses casos, o projeto em Recife conta com uma segunda frente, em parceria com a Boston Scientific. A alternativa é um implante minimamente invasivo chamado Watchman FLX. "Ele funciona como uma rolha", descreve a Dra. Tieta. O dispositivo é colocado por cateter para fechar a região do coração onde os coágulos costumam se formar, isolando-a e impedindo a formação do trombo. Dos pacientes diagnosticados pelo projeto, seis já receberam o implante.
A médica ressalta que o benefício do projeto vai além dos diagnósticos positivos. Para a grande maioria dos pacientes, saber que não tem fibrilação atrial também é um resultado valioso, que traz tranquilidade e afasta um fator de risco significativo para o AVC.
Este caso brasileiro ilustra de forma concreta como a inteligência artificial está se tornando uma ferramenta indispensável na saúde, capaz de ampliar a capacidade de diagnóstico médico, salvar vidas e personalizar tratamentos, trazendo mais eficiência e segurança para o sistema de saúde.