Genética influencia perda de peso com medicamentos como Wegovy e Mounjaro, revela estudo
Genética afeta perda de peso com remédios para obesidade

Genética explica por que algumas pessoas perdem mais peso com medicamentos para obesidade

Pessoas que apresentam variações específicas em dois genes relacionados ao apetite e à digestão podem experimentar resultados significativamente diferentes ao utilizar medicamentos como Wegovy e Mounjaro no tratamento da obesidade, conforme revela um estudo recente publicado na revista científica Nature. As descobertas ajudam a esclarecer por que alguns pacientes perdem muito mais peso do que outros e por que certos indivíduos sofrem com efeitos colaterais mais intensos, como náusea e vômito, durante o uso desses fármacos.

O papel dos genes na eficácia dos tratamentos

Os medicamentos, amplamente utilizados em diversos países, atuam reduzindo a sensação de fome ao imitar a ação de um hormônio intestinal natural que induz saciedade. Embora os genes tenham um papel relativamente modesto na eficácia geral desses tratamentos, especialistas destacam que outros fatores também influenciam os resultados, incluindo:

  • Sexo do paciente
  • Idade
  • Origem étnica
  • Condições de saúde pré-existentes

Estima-se que pelo menos 1,6 milhão de pessoas no Reino Unido tenham utilizado medicamentos para perda de peso no último ano, sendo que a maioria adquire esses produtos de forma privada através de farmácias online. O sistema público de saúde britânico oferece Wegovy e Mounjaro apenas a uma pequena parcela de pacientes com obesidade e condições associadas.

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Variações genéticas e seus impactos

A pesquisa, baseada em dados de 15 mil pessoas que utilizaram esses medicamentos para emagrecer, revelou uma perda média de peso de 11,7% do peso corporal ao longo de aproximadamente oito meses de tratamento. No entanto, a variação foi significativa: alguns pacientes perderam até 30% do peso, enquanto outros perderam pouco ou nada.

Ao analisar milhões de variações genéticas, os pesquisadores identificaram um padrão que sugere uma relação direta entre certas variantes genéticas e a eficácia dos tratamentos. A professora Ruth Loos, da Universidade de Copenhague, que comentou o estudo na Nature, explicou: "O estudo identificou uma variante genética associada à perda de peso, que também está ligada à ocorrência de náusea".

"As pessoas com essa variante tendem a perder mais peso", afirmou Loos. Essa diferença adicional corresponde, em média, a cerca de 0,76 kg, mas entre aqueles que possuem duas cópias do gene, a perda pode ser o dobro.

Distribuição étnica das variantes genéticas

Segundo a professora Loos, a variante é particularmente comum em pessoas de ascendência europeia:

  1. 64% possuem uma cópia do gene
  2. 16% têm duas cópias

Em comparação, apenas cerca de 7% dos afro-americanos carregam uma cópia do gene. "Se você tem essa variante, vai perder mais peso", reforçou a pesquisadora.

Efeitos colaterais e outras variantes

O estudo também identificou outra variante genética que pode estar relacionada aos efeitos colaterais mais intensos em usuários de tirzepatida (Mounjaro). Essa descoberta sugere que até 1% das pessoas que utilizam o medicamento podem apresentar episódios intensos de vômito, quase 15 vezes mais frequentes do que o habitual.

A professora Loos destacou que o efeito genético, embora modesto, "é comparável a outros fatores, e não é irrelevante". No entanto, ela ressaltou que os achados ainda precisam ser reproduzidos em outros estudos, o que até o momento não ocorreu.

Fatores além da genética

Para Marie Spreckley, da Universidade de Cambridge, "a genética é apenas uma parte de um quadro muito mais complexo". Segundo a especialista, os principais determinantes dos resultados são fatores comportamentais, clínicos e relacionados ao tratamento, incluindo:

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  • Prática diária de exercícios físicos
  • Alimentação saudável durante o uso do medicamento
  • Suporte e orientações recebidas
  • Condições de saúde pré-existentes

Pesquisas anteriores indicam que as mulheres têm mais que o dobro de chance de perder 15% do peso corporal com o uso de Mounjaro em comparação com homens. Ser mais jovem, branco ou asiático também está associado a maior perda de peso, embora as razões ainda não sejam totalmente compreendidas pela comunidade científica.

Medicina de precisão e futuro dos tratamentos

A longo prazo, a combinação de informações genéticas com outros dados poderá orientar a escolha do tratamento mais adequado para cada paciente, abordagem conhecida como "medicina de precisão". No entanto, esse cenário ainda está distante, conforme afirma o professor Naveed Sattar, especialista em saúde metabólica da Universidade de Glasgow.

"No geral, esses resultados são cientificamente interessantes, mas ainda estão longe de mudar a prática clínica", declarou Sattar. "O que precisamos agora são dados mais robustos de ensaios clínicos para definir melhor o equilíbrio entre benefícios e riscos desses e de outros tratamentos emergentes."

Acesso no Brasil e mudanças recentes

No Brasil, o acesso a esses medicamentos começa a passar por transformações significativas. O Rio de Janeiro se tornou a primeira cidade do país a oferecer o medicamento Ozempic pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em 18 de março. Essa medida ocorre no contexto do fim da patente da semaglutida, princípio ativo presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy.

Com o término da exclusividade da farmacêutica Novo Nordisk, outras empresas passam a poder desenvolver versões do composto. Na prática, a mudança abre espaço para concorrência e eventual redução de preços, embora esse efeito não deva ser imediato devido a entraves regulatórios e industriais.

Atualmente, o custo mensal do tratamento gira em torno de R$ 1.400, o que limita significativamente o acesso, especialmente entre a população de menor renda, que é justamente a mais afetada pela obesidade no país.