Covid-19 grave pode elevar risco de câncer de pulmão em até 24%, revela estudo
Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, trouxe uma revelação preocupante sobre as consequências de longo prazo da Covid-19. O estudo indica que infecções graves pelo coronavírus podem deixar marcas permanentes no organismo e aumentar significativamente o risco de desenvolvimento de câncer de pulmão anos após a fase aguda da doença.
Risco aumentado em casos que exigiram hospitalização
A análise dos pesquisadores identificou que pessoas que precisaram ser hospitalizadas por Covid-19 tiveram um risco 1,24 vez maior de desenvolver câncer de pulmão em comparação com aquelas que não passaram por quadros graves. Segundo o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, essa estatística ganha dimensão alarmante quando aplicada em escala populacional.
"Em um grupo de pessoas com características semelhantes, seria esperado cerca de 100 casos de câncer de pulmão ao longo do tempo", explica Stefani. "Entre aqueles que tiveram Covid grave, esse número sobe para aproximadamente 124 casos. Ou seja, são 24 casos a mais em um mesmo grupo comparável. Quando a gente leva esse aumento para uma escala populacional, se torna significativo."
Mecanismo biológico por trás do aumento de risco
Os pesquisadores analisaram tanto dados de pacientes quanto realizaram experimentos em modelos animais, encontrando padrões consistentes. Infecções respiratórias graves parecem alterar de forma persistente o ambiente pulmonar, criando condições favoráveis ao desenvolvimento de tumores.
A explicação está na resposta inflamatória desencadeada pela doença. Casos graves de Covid-19 já eram conhecidos por provocar uma reação intensa do sistema imunológico, a chamada "tempestade inflamatória". O novo estudo sugere que esse processo pode deixar sequelas duradouras.
Após a infecção, células de defesa passam a funcionar de forma alterada e mantêm um estado inflamatório crônico no pulmão. Esse ambiente é descrito pelos cientistas como "pró-tumoral", ou seja, favorável ao desenvolvimento de câncer. Além disso, foram observadas alterações nas células que revestem o pulmão, indicando um dano estrutural persistente.
Importante distinção entre casos leves e graves
Um aspecto crucial da pesquisa é que o aumento de risco foi observado principalmente em casos graves que exigiram hospitalização. Pessoas que tiveram infecções leves não apresentaram esse padrão preocupante.
"Não foi todo paciente com Covid que teve esse efeito", esclarece Stefani. "Estamos falando especificamente de quadros graves que necessitaram de internação hospitalar."
Implicações práticas para pacientes e sistema de saúde
Embora ainda não exista uma recomendação formal para rastreamento de câncer de pulmão baseado apenas no histórico de Covid grave, o estudo pode influenciar futuras diretrizes médicas. Especialistas recomendam atenção individualizada para quem foi hospitalizado pela doença.
Na prática, isso significa que pessoas com histórico de internação por Covid-19 devem conversar com seus médicos para avaliar a necessidade de acompanhamento mais próximo da saúde pulmonar. Esse acompanhamento pode incluir:
- Avaliação clínica periódica
- Investigação de sintomas persistentes como falta de ar e tosse crônica
- Em alguns casos específicos, exames de imagem complementares
Para quem já possui fatores de risco adicionais, como histórico de tabagismo, esse cuidado tende a ser ainda mais importante. A lógica é antecipar possíveis problemas, já que quanto mais cedo um câncer é identificado, maiores são as chances de tratamento eficaz e menos agressivo.
Papel protetor da vacinação
O estudo também trouxe uma notícia encorajadora: a vacinação parece reduzir significativamente os danos pulmonares associados às infecções graves, bloqueando parte das alterações que favorecem o desenvolvimento de câncer.
Essa descoberta reforça um efeito indireto importante das vacinas: além de prevenir formas graves da doença, elas podem também reduzir consequências de longo prazo para a saúde dos pacientes.
Limitações e necessidade de mais pesquisas
Apesar dos achados consistentes, os pesquisadores destacam que ainda são necessários mais estudos para entender completamente a duração desse risco aumentado e identificar quais pacientes são mais vulneráveis.
"A pandemia ainda é recente do ponto de vista científico", observa Stefani. "Os efeitos de longo prazo seguem em investigação, e a medicina ainda está aprendendo a lidar com as consequências tardias da Covid-19. Isso exige cautela antes de transformar evidências em recomendações amplas."
O estudo representa um alerta importante para sistemas de saúde em todo o mundo, incluindo o Brasil, onde mais de 11 mil pessoas morreram por Covid-19 apenas no Mato Grosso do Sul desde 2020. A descoberta reforça a necessidade de monitoramento contínuo da saúde de sobreviventes da doença, especialmente daqueles que enfrentaram quadros mais severos.



