Venezuela sob tutela de Trump: petróleo aberto e anistia marcam nova era pós-Maduro
Pouco mais de um mês após a operação militar americana que resultou na captura de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, hoje presos e aguardando julgamento por tráfico de drogas em Nova York, a Venezuela se tornou palco de uma experiência inédita nos tempos modernos. O país, com um governo próprio de esquerda e nacionalista, agora é claramente tutelado pelos Estados Unidos, uma nação intervencionista e de direita, tentando se equilibrar nesse complexo nó ideológico.
Reformas econômicas e sociais sob comando americano
Obedecendo a Donald Trump, mas fazendo de conta que é tudo ideia própria, a presidente interina, Delcy Rodríguez, encaminhou ao Congresso dois projetos de lei extraordinários, recebidos com euforia pela população. Um deles reverte a nacionalização da indústria petrolífera, já aprovado, e outro anistia os quase 1.000 presos políticos, ainda em fase de tramitação.
"Com o chavismo no poder, mas sujeito aos desígnios de Washington, ela mantém uma espécie de estabilidade tutelada", analisa Guillermo Aveledo Coll, professor de estudos políticos da Universidade Metropolitana, em Caracas.
Abertura do setor petrolífero a empresas estrangeiras
No âmbito econômico, a Assembleia Nacional aprovou uma reforma ditada pelo governo Trump na Lei de Hidrocarbonetos, revogando a nacionalização de 1976 e se afastando do modelo estatizante adotado por Hugo Chávez. A estatal PDVSA continua a existir, mas empresas privadas poderão operar no setor de forma independente, e não como acionistas minoritários, com porcentagem de royalties mais flexíveis e menos impostos.
Essa medida visa atrair os 10 bilhões de dólares em investimentos que Trump quer arrancar das reticentes petroleiras americanas. "O governo espera enviar um sinal suficientemente forte às empresas privadas de petróleo e gás de que pode haver compensação e ganhos no longo prazo com a retomada dos negócios na Venezuela. A atratividade dessa oferta, bem como sua durabilidade e legalidade no longo prazo, ainda estão por ser comprovadas", adverte David Goldwyn, presidente da consultoria Goldwyn Global Strategies.
Controle americano sobre as exportações de petróleo
A Casa Branca não deixa dúvidas sobre quem está no comando. Agências americanas cuidaram das tratativas para que 17,6 milhões de barris de petróleo bruto venezuelano fossem exportados em janeiro, sendo 8,9 milhões de barris destinados aos Estados Unidos. A receita de 500 milhões de dólares resultante da transação foi depositada por Washington em um fundo e dele transferida, em parcelas, para Caracas, com destinação predefinida.
"Assim permitimos que a Venezuela use seu petróleo para gerar recursos que paguem professores, bombeiros e policiais e mantenham o governo funcionando", explicou o secretário de Estado, Marco Rubio, em depoimento ao Senado.
Anistia de presos políticos e mudanças sociais
Um dos incentivos para o otimismo é a lei de anistia, que abrange processos de 1999 até agora, incluindo todo o período de governos alinhados ao chavismo. O projeto também fará da notória prisão Helicoide, centro de abusos e torturas, um espaço para esportes e serviços sociais. A libertação de presos políticos começou em 8 de janeiro, com 344 pessoas soltas até o momento, segundo a organização Foro Penal, enquanto 687 permanecem detidas.
Percepção pública e tensões persistentes
Pesquisa recém-divulgada pela The Economist mostra que só 13% dos venezuelanos questionam a ação militar americana e mais da metade têm uma visão favorável dos Estados Unidos. Além disso, quatro em cada cinco acreditam que a situação política estará melhor em um ano.
No entanto, o medo instilado por Maduro entre os venezuelanos diminuiu, mas não desapareceu. Diosdado Cabello, ministro do Interior e homem forte do chavismo, ainda controla as forças de segurança e os coletivos paramilitares. "Vivemos uma normalidade tensa e paralisante. Em janeiro, cada dia parecia um domingo sem fim", disse uma venezuelana que pediu anonimato por segurança.
Futuro político incerto
Dois terços da população acham que novas eleições deveriam ser convocadas em um prazo de seis meses a um ano, e a líder oposicionista María Corina Machado está na fila, tendo até dado sua medalha de Nobel da Paz a Trump para agradar. Mas não há indícios de que isso vá acontecer tão cedo.
"Tudo está indo muito bem com a Venezuela", garante o presidente americano, Donald Trump. E, pelo menos por enquanto, não se fala mais nisso, enquanto o país tenta se reerguer sob essa tutela inédita.