Venezuela debate anistia histórica para chavistas e acusados de traição à pátria
Venezuela debate anistia para chavistas e traição à pátria

Venezuela inicia debate histórico sobre anistia para crimes políticos do período chavista

O Parlamento da Venezuela deu início nesta quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026, a um debate legislativo de grande magnitude sobre um projeto de anistia que abrange quase três décadas de história política do país. Batizada como "Lei de Anistia para a Convivência Democrática", a proposta estabelece um marco temporal extenso, cobrindo casos ocorridos entre 1999 e 2026, período que corresponde integralmente à era chavista no poder.

Escopo e limitações da proposta de anistia

A iniciativa legislativa apresenta um caráter abrangente, porém com exclusões explícitas e significativas. O texto proposto prevê o perdão para crimes de natureza política, incluindo acusações como:

  • Traição à pátria
  • Terrorismo
  • Incitação ao ódio
  • Participação em protestos políticos
  • Críticas a figuras públicas

Contudo, a proposta exclui categoricamente crimes considerados graves, tais como:

  1. Crimes contra a humanidade
  2. Graves violações de direitos humanos
  3. Homicídio doloso
  4. Corrupção
  5. Tráfico de drogas

Consequências práticas e impacto imediato

Caso aprovada, a legislação traria mudanças concretas para centenas de indivíduos. A medida prevê:

Clemência imediata para detidos por motivos políticos, a devolução de bens confiscados e o cancelamento de alertas internacionais da Interpol. Este último aspecto permitiria que exilados políticos retornassem ao território venezuelano sem risco de detenção por solicitações de extradição.

Contexto político e liderança da iniciativa

A proposta está sendo conduzida pela presidente interina Delcy Rodríguez, que assumiu o poder após a captura do ex-ditador Nicolás Maduro durante uma operação militar norte-americana no início de janeiro. Rodríguez defende que a lei busca "abrir um caminho para a reconciliação nacional", afastando "a vingança, a revanche e o ódio" do processo político.

Em pronunciamento oficial, a presidente interina afirmou: "Que a lei sirva para curar as feridas deixadas pelo confronto político, pela violência e pelo extremismo. Que restaure a justiça em nosso país e restabeleça a convivência pacífica entre os venezuelanos."

Processo legislativo e cenário político

O debate parlamentar iniciou com a discussão do espírito geral da lei, etapa que antecede uma consulta à sociedade civil antes da análise artigo por artigo. Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e irmão da presidente interina, expressou esperança de que a medida sinalize o início de um novo ciclo político no país.

Com maioria absoluta no Legislativo, a bancada governista tem condições técnicas de aprovar o texto sem necessitar do apoio da oposição. Entretanto, o debate ocorre paralelamente a uma nova rodada de diálogo entre o governo e parte dos grupos opositores, excluindo a principal coalizão liderada por María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz.

Contexto internacional e precedentes históricos

A discussão sobre anistia ocorre sob o escrutínio do Tribunal Penal Internacional (TPI), que desde 2017 investiga denúncias de crimes contra a humanidade cometidos durante o governo Maduro. Esta atenção internacional acrescenta complexidade ao processo legislativo em curso.

Vale destacar que esta seria a segunda anistia na era chavista. A primeira foi aprovada em 2007, durante o governo do falecido Hugo Chávez, estabelecendo um precedente histórico para a atual proposta.

Medidas complementares e transição política

O debate sobre anistia coincide com outras iniciativas do governo interino, incluindo a libertação gradual de centenas de presos políticos anunciada em 8 de janeiro. Adicionalmente, há planos de transformar o célebre presídio Helicoide, em Caracas, em um centro para esportes e serviços sociais.

Desde sua ascensão ao poder, Delcy Rodríguez tem avançado na retomada das relações diplomáticas com Washington e na transferência do controle do setor petrolífero, medidas que integram um amplo processo de transição política na Venezuela.