Avanço da ultradireita na Europa: Chega de Ventura e partidos radicais em ascensão
Ultradireita avança na Europa com Chega de Ventura em Portugal

Avanço da ultradireita na Europa: Chega de Ventura e partidos radicais em ascensão

Já faz algum tempo que, toda vez que os europeus vão às urnas, a ultradireita, um ninho de preconceitos e extremismo que já causou danos catastróficos ao continente, mostra suas garras. Só em raros casos ela chegou a arranhar com força o status quo, graças a uma espécie de muro de contenção: forças de diferentes matizes no campo democrático reagem em movimentos ora bem organizados, ora estabanados, para conter a chegada ao poder de novatos que bradam contra a “invasão” de imigrantes promovida pelas “elites” ultrapassadas, tirando partido da onda de insatisfação popular com a economia estagnada e as ameaças a seu colchão de benefícios sociais.

Portugal e o fenômeno Chega

Aos poucos, porém, a ala mais radical da direita vai acumulando avanços expressivos, sendo o mais recente deles em Portugal. Lá, no domingo dia 8, a eleição para presidente, disputada tradicionalmente sem grandes emoções por um posto de poderes limitados, irá ao segundo turno pela primeira vez em quarenta anos, por obra e graça — e grande capacidade de mobilização — de André Ventura, do ultranacionalista Chega. A reviravolta comprova que, na Europa como em outros pontos do mundo, o radicalismo atingiu a maturidade e está integrado ao jogo do poder. Chegar lá, a julgar pelos resultados das pesquisas atuais, é uma questão de tempo.

Ao ser fundado, há meros sete anos, o Chega era tratado como piada na política portuguesa — um partido sem bases, sem história, sem lugar em um país onde socialistas e social-democratas tradicionalmente se revezavam no governo. Em maio, porém, veio a surpresa: de nanico, o Chega passou a ter a segunda maior bancada no Parlamento, encerrando meio século de bipartidarismo no país. Tudo isso batendo em uma tecla: a grita contra os imigrantes.

Estratégias e alvos políticos

Seu alvo inicial eram os roma (denominação oficial dos ciganos), mas o guarda-chuva aloja também os brasileiros, que formam 40% dos estrangeiros no país. Nos últimos tempos, o partido estendeu os ataques à alta do custo de vida, causa principal de uma crise imobiliária (outro pecado fincado na conta da imigração) que vem tirando o sono dos portugueses. Aproveitando o bom momento, Ventura, ex-comentarista esportivo de 43 anos, candidatou-se à Presidência e conquistou 23% dos votos no primeiro turno, só 8 pontos atrás de António Seguro, do Partido Socialista.

A possibilidade de que, vencedor, ele consiga usar as prerrogativas do cargo — veto a leis, nomeação de membros de órgãos estatais e judiciais e dissolução do Parlamento — para desestabilizar a democracia portuguesa fez com que se erguesse a habitual firewall, aparentemente com sucesso: Seguro recebeu apoio do rival Partido Conservador e de outras legendas da centro-direita, e as pesquisas indicam que ele tem chance de alcançar até 70% dos votos no segundo turno. Não se trata, nem de longe, de um freio definitivo. “Ventura pode até se beneficiar da união de socialistas e conservadores, alimentando a narrativa de que são todos farinha do mesmo saco”, diz António Costa Pinto, cientista político da Universidade de Lisboa.

França e Alemanha: cenários similares

O avanço da extrema direita europeia também fica evidente na virada a favor do francês Reagrupamento Nacional, novo nome da antes execrada Frente Nacional criada por Jean-Marie Le Pen (1928-2025), que costumava dizer, entre outras barbaridades, que o Holocausto foi um “detalhe” na Segunda Guerra. Com a sigla repaginada pela filha dele, Marine Le Pen, hoje 42% dos franceses, um recorde histórico, dizem concordar com suas ideias e com seu novo líder, Jordan Bardella, 30 anos, protegido de Marine, que se tornou o mais popular político na França e indiscutível favorito para as eleições presidenciais de 2027, oferecendo em tom menos furioso uma mescla de populismo econômico e nacionalismo radical.

“O apelo dos extremistas está intimamente ligado à crise da política tradicional, que a população enxerga como desconectada da realidade. Eles aprenderam a se apresentar não como radicais, mas realistas”, explica Grégoire Roos, do think tank Chatham House.

Reino Unido e outros exemplos

Do outro lado do Canal da Mancha, a política britânica, marcada desde sempre pelo bipartidarismo, também virou de cabeça para baixo com o furacão Reform UK. Liderado por Nigel Farage, o cruzado do Brexit que por muito tempo ninguém levou a sério, o partido aparece com 28% das intenções de voto antes das eleições locais marcadas para maio, 9 pontos à frente do Partido Trabalhista e 11 do Conservador. Nas últimas semanas, seus apoiadores têm saído às ruas portando cartazes que exigem: “Parem os barcos”, dando respaldo à sua proposta de fechar o país para refugiados que chegam pelo mar.

Mas talvez em nenhum lugar o flerte com o radicalismo de direita cause tanto receio quanto em Berlim, o berço do nazismo, onde a Alternativa para a Alemanha (AfD), sigla vigiada pela polícia, tornou-se no ano passado a segunda maior força no Parlamento (e entrou em 2026 de olho nas eleições locais, em março e setembro). Com margem mais apertada, a AfD também supera em preferência todos os outros rivais, embalada pela insatisfação com a estagnação econômica, a inflação alta e o emprego em baixa, marcas espelhadas nos vizinhos.

Conclusão: uma força madura e organizada

De deputado em deputado, de prefeito em prefeito, a extrema direita da Europa vai mostrando sua força — mais madura, mais organizada e mais perto do poder do que nunca. Este fenômeno reflete uma insatisfação crescente com as estruturas políticas tradicionais e uma busca por alternativas radicais em tempos de crise econômica e social.