Trump oficializa 'Conselho da Paz' para Gaza sem apoio europeu e com poder vitalício
Trump cria Conselho da Paz para Gaza com poder vitalício

Sem apoio europeu, Trump lança Conselho da Paz com poder vitalício sobre Gaza

Em um movimento que isolou aliados tradicionais da Europa, o presidente americano Donald Trump oficializou nesta quinta-feira (22) a criação de um "Conselho da Paz" dedicado à reconstrução da Faixa de Gaza. A cerimônia de lançamento, realizada sem o respaldo de nações europeias, marcou o início de uma iniciativa polêmica que coloca Trump como líder vitalício e único detentor de poder de veto no novo organismo internacional.

Composição limitada e críticas ao esvaziamento da ONU

O conselho contou com a assinatura de representantes de 19 países, todos alinhados com a política externa de Trump. A lista inclui:

  • Democracias como Argentina, Paraguai, Hungria, Bulgária, Turquia, Kosovo, Armênia, Paquistão, Mongólia e Indonésia.
  • Nações sem democracia plena, como Marrocos e Jordânia.
  • Seis regimes considerados autoritários: Azerbaijão, Uzbequistão, Cazaquistão, Bahrein, Qatar e Emirados Árabes Unidos.
  • Uma ditadura, a Arábia Saudita.

Notavelmente, potências como Rússia, China, Brasil, França, Alemanha e Reino Unido, embora convidadas, recusaram-se a assinar o documento. Em entrevista ao jornal O Globo, Celso Amorim, principal assessor internacional do presidente Lula, classificou a proposta como "confusa" e difícil de ser aceita pelo Brasil. Amorim alertou que o conselho representa, na prática, uma revogação das funções da Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente nas áreas de paz e segurança.

Estatuto polêmico e expansão futura

O estatuto do Conselho da Paz estabelece que Donald Trump será o presidente vitalício do grupo, com poder de veto exclusivo. Os demais integrantes terão mandatos de três anos, mas aqueles que desejarem uma vaga permanente precisarão pagar uma contribuição de US$ 1 bilhão (equivalente a mais de R$ 5 bilhões). A missão inicial do conselho é supervisionar a implementação do plano de paz para Gaza, que prevê a desmilitarização do território palestino, uma governança adequada e uma reconstrução ambiciosa.

Jared Kushner, genro de Trump, apresentou durante o evento projetos imobiliários que incluem áreas turísticas e arranha-céus para a região. No entanto, Trump deixou claro que a atuação do conselho pode se expandir além de Gaza. "À medida em que tivermos sucesso em Gaza, podemos expandir para outras áreas. Assim que este conselho estiver completamente formado, podemos fazer praticamente o que quisermos", declarou o presidente americano.

Reações internacionais e implicações geopolíticas

Analistas e pesquisadores têm criticado a criação do grupo. Yassamine Mather, pesquisadora da Universidade de Oxford, argumenta que, apesar de suas limitações, a ONU ainda é o fórum que reúne 193 nações mundialmente. Ela destaca que o Conselho da Paz anunciado por Trump só atraiu um número muito limitado de países, cujos líderes são próximos do mandatário americano.

O convite à Rússia, país envolvido em uma guerra contra a Ucrânia há quase quatro anos, chamou a atenção. O presidente Vladimir Putin afirmou que aceitaria participar, desde que a contribuição de US$ 1 bilhão possa ser retirada dos ativos russos bloqueados pelo Ocidente devido ao conflito.

Desdobramentos na guerra da Ucrânia

Após a cerimônia, Donald Trump realizou uma reunião a portas fechadas com Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, que durou cerca de uma hora. Trump descreveu o encontro como "muito bom" e anunciou que representantes americanos iniciarão conversas com os russos, visando encerrar a guerra. Zelensky revelou que delegações dos Estados Unidos, Rússia e Ucrânia participarão de reuniões trilaterais nos Emirados Árabes, marcando a primeira vez que representantes russos e ucranianos se sentarão juntos em negociações mediadas pelos EUA.

Além disso, Zelensky confirmou que um texto sobre garantias de segurança foi fechado e agora aguarda assinaturas presidenciais, seguido de aprovação nos parlamentos da Ucrânia e dos Estados Unidos. Em discurso em Davos, o presidente ucraniano fez cobranças aos aliados europeus, defendendo que a Europa precisa mostrar força e assumir a liderança, em vez de tentar mudar a postura de Donald Trump.