Em um dia marcado por expectativa e apreensão, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quarta-feira (21) a formação das bases para um futuro acordo sobre a Groenlândia em conjunto com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A declaração foi feita durante sua participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, encerrando um período de tensões e ameaças públicas que haviam agitado a aliança militar ocidental.
Do tom ameaçador ao anúncio do acordo
A quarta-feira em Davos começou sob o espectro das recentes declarações agressivas de Trump, que nos dias anteriores não havia descartado o uso da força para alcançar seus objetivos na região ártica. No entanto, durante seu discurso no evento, o presidente americano surpreendeu ao adotar um tom mais conciliador, afirmando explicitamente que não recorreria a medidas militares. "Eu não farei isso. Essa é provavelmente a declaração mais importante, porque as pessoas pensavam que eu usaria a força", declarou Trump, buscando acalmar os ânimos.
Detalhes escassos sobre o entendimento
Horas após o discurso, Trump utilizou suas redes sociais para anunciar oficialmente o progresso nas negociações. "Formamos a base de um acordo sobre a Groenlândia e toda a região do Ártico. Essa solução, se consumada, será ótima para os Estados Unidos e todas as nações da Otan", escreveu o presidente. Como contrapartida imediata, ele afirmou que não imporia mais as tarifas que estavam previstas para entrar em vigor em fevereiro, sinalizando um alívio nas tensões comerciais.
Questionado pela correspondente Bianca Rothier sobre a natureza do acordo, Trump descreveu-o como "fantástico", mas não forneceu detalhes concretos. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, também evitou especificações quando interrogado, limitando-se a afirmar que o entendimento "poderá realmente proteger o Ártico". Segundo informações do jornal New York Times, citando fontes anônimas, a proposta em discussão seguiria um modelo similar ao das bases britânicas no Chipre, que são consideradas território do Reino Unido dentro do país soberano.
Críticas à Europa e defesa de políticas energéticas
O discurso de Trump, que durou aproximadamente uma hora e quinze minutos – o dobro do tempo inicialmente previsto –, não se limitou ao tema da Groenlândia. O presidente americano aproveitou a plataforma para lançar duras críticas aos países europeus, afirmando que o continente está "irreconhecível" e não segue a direção correta. Entre seus principais alvos estiveram:
- A imigração em massa, que ele considera descontrolada
- Os altos gastos governamentais, que classificou como excessivos
- O investimento em energia verde, que qualificou como um "equívoco"
Em contrapartida, Trump voltou a defender a exploração de petróleo e gás, destacando com orgulho a aquisição de petróleo venezuelano após a operação militar que capturou o ditador Nicolás Maduro. "A Venezuela vai se dar muito bem", assegurou o presidente, sem detalhar como essa transição ocorreria na prática.
A justificativa geopolítica para a Groenlândia
Retomando o tema que dominou as atenções, Trump apresentou argumentos de segurança nacional para justificar o interesse americano na Groenlândia, ilha ártica que é território semiautônomo da Dinamarca. O presidente afirmou que os Estados Unidos "precisam da Groenlândia para garantir a segurança do país e do mundo", acrescentando que apenas a nação norte-americana teria capacidade para proteger adequadamente a região.
Em tom que mesclava persuasão e ameaça, Trump direcionou-se aos aliados: "Então vocês têm uma escolha. Vocês podem dizer sim e nós seremos muito gratos. Ou vocês podem dizer não, e nós vamos nos lembrar". O plano específico mencionado pelo presidente envolve a construção de um sistema de defesa batizado de Domo de Ouro, que, segundo sua visão, garantiria a segurança internacional.
Reações e contradições nas declarações
As críticas de Trump à Otan foram particularmente incisivas durante seu discurso. O presidente afirmou que os Estados Unidos "sempre sustentaram a aliança" sem receber nada em troca, uma declaração que ignora fatos históricos relevantes. Após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, todos os países membros da Otan, incluindo a Dinamarca, mobilizaram-se em defesa dos Estados Unidos – os dinamarqueses chegaram a perder 44 soldados no Afeganistão durante esse esforço conjunto.
Em entrevista posterior à imprensa, Trump foi questionado pela correspondente Bianca Rothier sobre seu plano para convencer os aliados europeus a aceitarem o acordo. Sua resposta foi direta e reveladora: "Não há plano. Precisamos da Groenlândia para a paz internacional". O presidente acrescentou que "a Dinamarca ficará muito mais segura se fizermos o que temos que fazer com o Domo de Ouro", reforçando sua visão de que a segurança global depende desse projeto.
O desfecho de um dia histórico em Davos
A participação de Donald Trump no Fórum Econômico Mundial mobilizou líderes mundiais, empresários e jornalistas, que disputaram espaço para acompanhar suas declarações. Cinco horas após o anúncio inicial nas redes sociais, o presidente voltou a falar com a imprensa, novamente elogiando Mark Rutte e descrevendo o acordo como "ótimo, fantástico", sem no entanto avançar em detalhes substantivos sobre os próximos passos das negociações.
O episódio revela a complexa dinâmica das relações internacionais na era Trump, onde anúncios por redes sociais, discursos prolongados e declarações contraditórias se misturam com negociações diplomáticas tradicionais. A base de acordo sobre a Groenlândia, ainda envolta em mistério quanto aos seus termos específicos, representa tanto uma potencial desescalada de tensões quanto um novo capítulo na disputa por influência na estratégica região ártica.