Terras raras: Brasil no centro da disputa global entre EUA e China
Terras raras: Brasil na disputa global entre EUA e China

O avanço da tecnologia e a corrida pela energia limpa colocaram o Brasil no centro de uma disputa geopolítica global. O país possui a segunda maior reserva das chamadas terras raras, um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a indústria tecnológica moderna. Esse trunfo está na pauta do Congresso Nacional e é tema estratégico da reunião entre os presidentes Lula e Donald Trump, realizada nesta quinta-feira (7).

O que são terras raras?

As terras raras receberam esse nome no final do século XVIII, mas a terminologia é imprecisa: elas não são terras nem tão raras na crosta terrestre. Trata-se de um grupo de 17 elementos da Tabela Periódica, incluindo os 15 lantanídeos (do lantânio ao lutécio), além de escândio e ítrio. O geólogo Alexandre Magno Rocha, professor do IFRN, explica: "As terras raras são uma família com uma característica curiosa: todos parecem irmãos gêmeos. Vivem juntos nas rochas e se comportam de forma tão parecida que a própria natureza tem dificuldade de separá-los – e a indústria também".

Diferença para metais comuns

Enquanto ferro e cobre são usados em grandes volumes, as terras raras operam como componentes de altíssima performance. Ysrael Marrero Vera, pesquisador do CETEM, afirma: "Podemos dizer que as terras raras são 'vitaminas da indústria tecnológica': usadas em pequenas quantidades, mas sem elas o desempenho de muitos sistemas cai drasticamente". O magnetismo do neodímio, por exemplo, é tão forte que uma pequena fração equivale a quilos de ferro. A estabilidade também é superior: alguns desses elementos mantêm a condução elétrica e o magnetismo mesmo em altas temperaturas.

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Aplicações no dia a dia

As terras raras estão presentes em celulares (alto-falantes, vibração, telas coloridas), carros elétricos (motores potentes e leves), turbinas eólicas (ímãs de neodímio), equipamentos de saúde (ressonância magnética, lasers) e sistemas de defesa (drones, sensores, satélites). São insubstituíveis: substitutos parciais existem, mas com perda de eficiência, maior peso e consumo energético.

Processamento caro e complexo

O grande desafio é separar os elementos, quimicamente muito parecidos. O processo envolve consumo massivo de ácidos, infraestrutura especializada, gestão de resíduos e conhecimento técnico. A China levou mais de 50 anos para dominar essa tecnologia. As etapas incluem concentração física do minério, ataque químico com ácidos, remoção de impurezas (incluindo tório e urânio), separação individual por extração com solventes em dezenas ou centenas de estágios, e refino final.

Terras raras leves e pesadas

Leves (lantânio, cério, neodímio) são mais abundantes. Pesadas (disprósio, térbio, lutécio) são mais raras e decisivas para tecnologias de ponta. O óxido de lutécio pode custar até US$ 15 mil o quilo, não apenas pela escassez geológica, mas pelos milhares de estágios de separação necessários.

Custo ambiental

A produção de terras raras impõe sérios desafios ambientais: uso intensivo de substâncias tóxicas, geração de resíduos radioativos, alto consumo de água e energia, desmatamento e contaminação de águas.

Por que o Brasil é privilegiado?

O Brasil reúne três fatores raros: origem vulcânica (magmas carbonatíticos que funcionam como "cofres naturais"), clima tropical (calor e chuvas que concentram os elementos no solo) e tempo geológico. A Província Ígnea do Alto Paranaíba, em Minas Gerais e Goiás, abriga a maior faixa contínua de jazidas de terras raras pesadas fora da China. Além disso, o país descobriu argilas iônicas, onde a extração é mais barata, embora com impacto ambiental relevante.

Por que o Brasil não aproveita o potencial?

Apesar da abundância, o Brasil ainda não domina o processamento industrial, liderado pela China (90% do refino mundial). O país corre o risco de repetir o modelo do minério de ferro e da soja: exportar matéria-prima barata e importar produtos finais caros. O conhecimento técnico existe nas universidades, mas falta investimento em plantas industriais. O professor Alexandre Magno Rocha resume: "O Brasil domina o primeiro capítulo da história – encontrar o minério. O desafio agora é escrever os capítulos seguintes: a química fina, a purificação e a industrialização".

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A "guerra fria" das terras raras

A China controla as refinarias, e o Ocidente depende delas. Os EUA buscam parceiros alternativos para reduzir essa dependência, e o Brasil é um dos principais candidatos. A reunião Lula-Trump discute o acesso às reservas brasileiras. Enquanto os EUA querem acesso rápido e menos burocracia, o Brasil defende a soberania nacional e a agregação de valor. A Câmara dos Deputados aprovou a Política Nacional para Exploração de Minerais Críticos, com fundo de até R$ 5 bilhões para incentivar a transferência de tecnologia.