Suprema Corte dos EUA decide sobre demissão de Lisa Cook do Federal Reserve
A Suprema Corte dos Estados Unidos realiza nesta quarta-feira, 21 de agosto de 2025, uma sessão histórica para ouvir argumentos sobre a tentativa do presidente Donald Trump de demitir Lisa Cook do cargo de diretora do Federal Reserve, o banco central americano. O caso coloca em jogo a independência da instituição monetária mais poderosa do mundo.
O conflito entre Trump e o Federal Reserve
Na prática, a Suprema Corte analisa se Trump tem poder legal para remover Lisa Cook de sua posição. Embora o republicano tenha anunciado a demissão da diretora em agosto de 2025, a Justiça barrou a medida inicialmente. A Casa Branca recorreu à instância máxima, que agora avalia os fundamentos do caso.
Especialistas alertam que a independência do Fed está em risco. Desde o início de seu segundo mandato, Trump tem buscado formas de pressionar o banco central a cortar os juros para estimular a atividade econômica. O Fed, no entanto, manteve uma postura cautelosa em suas decisões monetárias.
Segundo o jornal The New York Times, o presidente da instituição, Jerome Powell, deve comparecer à audiência em defesa da autonomia do banco central. Além de tentar demitir Cook, Trump vinha insultando e pressionando Powell publicamente.
As acusações contra Lisa Cook
Lisa Cook, que também estará presente nas sustentações orais, é acusada pela gestão Trump de fraude hipotecária. A Casa Branca alega que a diretora declarou duas residências como principais, supostamente para obter melhores condições de financiamento imobiliário, o que configuraria justa causa para sua demissão.
O caso foi encaminhado ao Departamento de Justiça. Cook nega veementemente as acusações, argumentando que os documentos de empréstimo foram assinados antes de seu ingresso no Federal Reserve. Em outubro, a Suprema Corte determinou provisoriamente que ela poderia permanecer no cargo enquanto o processo judicial segue em tramitação.
Impactos na independência do Fed
A leitura de especialistas e do mercado financeiro é que, caso a Suprema Corte autorize a demissão, Trump e futuros presidentes terão brecha para destituir dirigentes do Fed e interferir na independência da instituição. Após a medida do republicano, um grupo de 18 ex-diretores do Federal Reserve, ex-secretários do Tesouro e outros altos funcionários pediu que a corte rejeite a petição.
A lei que criou o Fed em 1913, o Federal Reserve Act, inclui medidas para proteger o banco central de interferências políticas. Estabelece que diretores só podem ser removidos pelo presidente por justa causa, embora não defina o termo nem o procedimento. Até hoje, esse dispositivo nunca havia sido testado em tribunal.
O que esperar da decisão
Mesmo que o resultado favoreça Lisa Cook, a decisão poderá servir como um roteiro sobre como um presidente pode remover um membro da direção do banco central, segundo analistas jurídicos. Uma decisão contrária poderia evidenciar as falhas na tentativa de demissão, indicando o caminho necessário para caracterizar a justa causa exigida.
A porta está aberta, disse à Reuters ex-presidente do Fed de Cleveland Loretta Mester. A questão é como isso será resolvido de uma forma que não permita que quem quer que esteja no gabinete do presidente simplesmente possa decidir não querer uma pessoa, acusá-la de algo e isso ser o suficiente.
Contexto político e econômico
No segundo semestre de 2025, Trump passou a se dedicar à indicação de nomes alinhados à sua agenda econômica para a diretoria do Federal Reserve. O republicano já nomeou Stephen Miran para substituir Adriana Kugler. Caso a Justiça confirme a demissão de Cook, Trump terá garantido ao menos duas indicações para a diretoria.
O cargo de presidente da instituição também está no horizonte, já que o mandato de Powell se encerra em maio. Caso Trump alcance maioria de aliados no conselho do Fed — que tem sete membros —, ele terá maior influência sobre as nomeações nos 12 bancos regionais e, consequentemente, sobre as decisões de juros.
Quem é Lisa Cook
Lisa Cook fez história em 2022 ao se tornar a primeira mulher negra indicada para a diretoria do Fed, com mandato até 2038. Ela foi professora de economia e relações internacionais na Universidade Estadual de Michigan, economista na Universidade de Oxford e doutora pela Universidade da Califórnia, Berkeley.
Como pesquisadora, investigou os impactos da discriminação na economia americana e como as recessões afetam mais os pobres. Fala cinco idiomas, incluindo russo, e é especialista em desenvolvimento internacional, tendo participado da recuperação de Ruanda após o genocídio de 1994.
Cook foi indicada para o cargo pelo presidente democrata Joe Biden e integrou o Conselho de Assessores Econômicos de Barack Obama. Como uma das sete integrantes da diretoria do Fed, participa diretamente das decisões sobre a taxa de juros nos EUA — instrumento crucial para conter a inflação e estimular a economia.