Em um discurso marcante no Fórum Econômico Mundial em Davos, nesta quinta-feira (22), o primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, pintou um cenário sombrio para as relações internacionais. "O novo mundo das grandes potências é baseado no poder, na força e, quando necessário, na violência. Não é um lugar confortável", declarou Merz, ecoando preocupações já expressas por outros líderes durante o evento.
Um alerta sobre a nova ordem global
Merz afirmou que "uma nova era começou", alinhando-se com alertas anteriores feitos pelo premiê canadense, Mark Carney, e pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Ele destacou que, neste contexto, as "potências médias" estão na linha de frente como possíveis vítimas, logo após os pequenos Estados, que já sentem os efeitos dessa dinâmica agressiva.
A delicada relação transatlântica
Apesar do tom de alerta, Merz foi enfático ao defender a manutenção da parceria com os Estados Unidos. "Apesar de toda frustração e raiva dos últimos meses, não devemos descartar tão rapidamente a parceria transatlântica", afirmou. Ele ressaltou a importância da confiança na Otan como uma "decisiva vantagem competitiva" para ambos os lados do Atlântico.
No entanto, o líder alemão fez questão de sublinhar que os princípios dessa aliança devem ser preservados, especialmente no que diz respeito à soberania e integridade territorial. A declaração foi uma clara referência às recentes ameaças do presidente americano, Donald Trump, sobre a possível anexação da Groenlândia, território autônomo dinamarquês.
Críticas veladas e defesa do comércio justo
Merz classificou qualquer tentativa de anexação como "inaceitável" e alertou que novas tarifas comerciais, outra bravata de Trump, encontrariam uma resposta europeia "unida, calma, ponderada e resoluta". Ele parabenizou o recuo americano nas ameaças à Groenlândia, mas defendeu que a Europa deve se opor firmemente a práticas como:
- Protecionismo de recursos
- Proibições tecnológicas arbitrárias
- Tarifas comerciais unilaterais
"Queremos fortalecer as regras para o comércio justo e a igualdade de condições", afirmou Merz, anunciando um pacote de recomendações para reduzir a burocracia europeia, elaborado em conjunto com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni.
O acordo UE-Mercosul em pauta
Um dos pontos altos do discurso foi a defesa enfática do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul. Merz afirmou que "não há alternativa se queremos maior crescimento na Europa", referindo-se ao pacto que recebeu uma revisão jurídica no Parlamento Europeu na quarta-feira (21).
O encaminhamento do acordo ao Tribunal de Justiça da UE pode mantê-lo suspenso por até dois anos, a menos que a Comissão Europeia adote uma ação unilateral sugerida por Merz. O primeiro-ministro alemão garantiu: "Fiquem tranquilos: não seremos impedidos. O acordo com o Mercosul é justo e equilibrado".
Oposição e pressões geopolíticas
A defesa do acordo ocorre em um contexto de forte oposição, liderada pelo presidente francês, Emmanuel Macron. Para a Alemanha, maior exportadora da Europa e há três anos em estagnação econômica, o pacto com o Mercosul é visto como uma tábua de salvação econômica.
O assunto deve dominar a reunião do Conselho Europeu marcada para ainda nesta quinta-feira, originalmente agendada para discutir a situação da Groenlândia. A decisão sobre como proceder com o acordo promete gerar mais atritos em uma União Europeia já pressionada por divisões geopolíticas e comerciais.
O discurso de Merz em Davos reflete a complexidade deste momento de transição global, onde alertas sobre violência e poder convivem com tentativas de preservar alianças históricas e buscar novos caminhos para o crescimento econômico.