Macron acusa governo Trump de buscar "desmembramento da União Europeia"
O presidente da França, Emmanuel Macron, fez duras declarações nesta terça-feira (10) sobre a postura do governo norte-americano liderado por Donald Trump. Em uma longa entrevista concedida a importantes jornais europeus, como o Financial Times e o Le Monde, Macron afirmou que a administração Trump adota uma clara postura antieuropeia e busca ativamente o "desmembramento da União Europeia".
Preparação para novas agressões de Washington
Segundo o líder francês, os países do continente europeu devem se preparar imediatamente para novas agressões vindas de Washington. Macron destacou que a crise envolvendo a Groenlândia, território autônomo ligado ao Reino da Dinamarca que despertou interesse de Trump, "não acabou" e representa apenas um capítulo nas tensões transatlânticas.
"Quando há um ato claro de agressão, o que não devemos fazer é abaixar a cabeça ou buscar um acordo", afirmou Macron durante a entrevista. "Tentamos essa estratégia por meses e ela não está funcionando."
Defesa de coordenação europeia
O presidente francês defendeu que os 27 países do bloco europeu atuem de forma coordenada e unificada para reforçar sua competitividade no mercado global. Essa estratégia, segundo Macron, deve ser aplicada não apenas diante do avanço econômico da China, mas também frente a antigos aliados do período pós-guerra, como os Estados Unidos.
Macron propôs que a Europa aproveite o chamado "momento Groenlândia" como catalisador para maior integração e assertividade. O líder francês alertou ainda que o foco recente de Trump nas questões relacionadas ao Irã não significa o fim das tensões com o continente europeu.
Relações tensas e críticas mútuas
Emmanuel Macron tem sido um dos alvos recorrentes das críticas do presidente norte-americano, que o incluiu entre os exemplos de "líderes fracos" em documentos estratégicos dos Estados Unidos. Internamente fragilizado e em seu segundo e último mandato, Macron tem adotado um discurso progressivamente mais duro no campo das relações internacionais.
Nova frente de conflito: regulação digital
O presidente francês antecipou uma nova frente de conflito com Washington: a regulação das grandes empresas de tecnologia. Segundo Macron, os Estados Unidos devem reagir às regras europeias sobre proteção de dados e concorrência com a imposição de novas tarifas comerciais.
"Os EUA vão nos atacar no campo da regulação digital", afirmou Macron durante a entrevista, demonstrando preocupação com as possíveis retaliações norte-americanas às políticas regulatórias europeias.
Pressão econômica e dependência do dólar
No plano econômico, Macron afirmou que a Europa se encontra pressionada entre as políticas de Trump e o avanço econômico da China. O líder francês voltou a criticar a dependência excessiva do dólar no sistema financeiro internacional e defendeu a ampliação da emissão de títulos em euro para financiar a competitividade industrial europeia.
Macron reconheceu, no entanto, a resistência de países mais austeros dentro do bloco europeu a essas medidas de integração financeira. O presidente francês reiterou ainda sua oposição ao acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, que considera prejudicial ao agronegócio francês.
Questões de defesa e Otan
Até o momento, o discurso por maior assertividade europeia vinha se concentrando principalmente na área de defesa, diante do distanciamento progressivo de Trump em relação à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Essa postura norte-americana impulsionou programas de rearmamento em vários países europeus, especialmente na Alemanha, mas também gerou atritos internos significativos.
O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, chegou a afirmar recentemente que a Europa precisa "parar de sonhar" com um sistema de defesa independente dos Estados Unidos. Nesse contexto conturbado, a França suspendeu temporariamente o avanço do projeto de desenvolvimento de um caça de sexta geração em parceria com Alemanha e Espanha, após surgirem divergências industriais entre os países envolvidos.
Mesmo com essa suspensão, Macron afirmou categoricamente que o programa de desenvolvimento do caça "não está morto" e pode ser retomado quando as condições forem mais favoráveis.
Diplomacia independente em relação à Ucrânia
Macron também tem tentado abrir espaço para uma diplomacia europeia mais independente em relação à Guerra da Ucrânia, conflito que atualmente sofre forte influência das posições de Donald Trump. O presidente francês defendeu recentemente a reabertura de canais diretos de comunicação com a Rússia e enviou seu principal diplomata a Moscou para tentar estabelecer pontes de diálogo.
O Kremlin confirmou oficialmente esses contatos diplomáticos nesta terça-feira. "Houve contatos que, se necessário, podem ajudar a restabelecer rapidamente um diálogo em alto nível", afirmou o porta-voz presidencial russo, Dmitri Peskov.
Macron foi um dos líderes europeus que mais se empenhou em tentar evitar a invasão russa da Ucrânia em 2022, mas posteriormente rompeu o diálogo direto com o presidente Vladimir Putin. Agora, parece buscar uma reaproximação cautelosa que permita à Europa maior autonomia nas negociações de paz.
Contexto das declarações
As declarações de Emmanuel Macron foram dadas às vésperas de uma importante cúpula de líderes da União Europeia, marcada para quinta-feira (12). O momento escolhido para a entrevista sugere que o presidente francês busca influenciar a agenda e as discussões do encontro, pressionando por uma postura europeia mais unificada e assertiva frente aos desafios internacionais.
O discurso de Macron reflete uma mudança significativa na postura europeia em relação aos Estados Unidos, tradicionalmente visto como o principal aliado do continente. As tensões transatlânticas, que vinham se acumulando desde o primeiro mandato de Trump, parecem ter atingido um novo patamar com essas declarações públicas do líder francês.