Acordo anunciado por Trump sobre Groenlândia permanece envolto em incertezas
Após semanas de intensa pressão e ameaças tarifárias com o claro objetivo de anexar a Groenlândia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou no dia 21 de janeiro que havia finalmente chegado a um acordo com a Otan, a poderosa aliança militar ocidental, referente à disputada ilha no Oceano Ártico. No entanto, quase vinte dias depois dessa declaração, os detalhes concretos desse suposto acordo continuam completamente desconhecidos, gerando desconfiança e apreensão nos círculos diplomáticos internacionais.
Reação europeia e mudança de foco de Trump
Enquanto a situação permanece nebulosa, importantes líderes europeus têm se mobilizado de forma ativa. O presidente da França, Emmanuel Macron, o premiê da Alemanha, Friedrich Merz, e a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, passaram a realizar uma série de encontros estratégicos com o objetivo claro de demonstrar apoio unificado à soberania dinamarquesa, país que historicamente controla a Groenlândia. Paralelamente, Donald Trump, envolvido em uma disputa acirrada com a oposição para aprovar o orçamento do governo norte-americano, parece ter deixado o tema da Groenlândia momentaneamente de lado.
O republicano tem concentrado suas publicações nas redes sociais e suas declarações à imprensa em outros assuntos de política externa, como movimentações militares contra o Irã, complexas negociações com a Venezuela e novas acusações infundadas de que teria sido o verdadeiro vencedor das eleições presidenciais de 2020. Na quarta-feira, dia 4 de fevereiro, a União Europeia decidiu retomar as tratativas para implementar o acordo comercial com os Estados Unidos, que haviam sido suspensas justamente após a investida agressiva de Trump contra a Groenlândia. Esse movimento foi amplamente interpretado como um sinal de possível arrefecimento das tensões recentes.
Estratégia de apaziguamento e seus limites
Mudar de assunto, porém, não é uma opção viável para os países europeus. As discussões sobre a melhor estratégia para dissuadir o presidente da maior potência militar do mundo de invadir e ocupar a Groenlândia seguem intensas nos principais centros de poder em Londres, Paris, Berlim e Copenhague. Segundo a análise do especialista militar Carlo Masala, diretor do Centro de Inteligência da Universidade das Forças Armadas alemãs em Munique, caso uma invasão norte-americana se concretize, a Europa provavelmente não terá capacidade de reagir de forma eficaz.
"Trump descartou essa possibilidade em Davos, mas, se imaginarmos que ele decida conquistar a Groenlândia militarmente, não acredito que a Europa fará algo concreto", afirma Masala. Questionado sobre os cerca de 70 mil soldados americanos estacionados em bases pelo continente europeu, sendo aproximadamente 35 mil somente na Alemanha, o analista avalia que é muito pouco provável que sua presença seja contestada, mesmo em um cenário extremo de invasão à Groenlândia.
"Ninguém quer se envolver em uma guerra direta contra os Estados Unidos. Se os acordos de posicionamento de tropas forem encerrados e a Europa forçar uma retirada completa dos americanos do continente, surgirá um problema gravíssimo. Não estamos preparados para nos defender sozinhos diante de uma possível invasão russa a um país europeu", alerta o especialista. Essa presença militar massiva é um legado histórico da ocupação após o fim da Segunda Guerra Mundial e do período da Guerra Fria, com os Estados Unidos mantendo inclusive armas nucleares em países como Holanda, Itália e Alemanha.
Política alemã e interesses da Casa Branca
De acordo com Masala, esse cenário de dependência estratégica ajuda a explicar a abordagem cautelosa adotada por Berlim. O governo alemão, liderado por Friedrich Merz, tem evitado críticas mais duras e diretas a Washington, conduzindo o que muitos críticos classificam como uma política de apaziguamento. "Enquanto Trump permanecer no poder, acredito que a Alemanha e outros países tentarão conquistá-lo, convencê-lo a mudar de rumo. Aceitar exigências, acomodar, talvez não completamente, mas sempre tentar acomodar. Por trás disso está o temor profundo de que, sem os americanos, a Europa fique completamente indefesa", explica o analista, acrescentando que essa condição de vulnerabilidade não será superada antes de cinco ou seis anos.
Para Masala, no entanto, a eficácia dessa estratégia de apaziguamento chegou claramente ao seu limite com a pressão aberta e agressiva dos Estados Unidos para anexar a Groenlândia. "Já está evidente que não é possível mudar a posição de Trump por um período significativo. É possível influenciá-lo temporariamente, mas não há garantia alguma de que ele manterá uma opinião diferente sobre determinado assunto daqui a duas semanas", ressalta. "Por isso, acredito que seja necessário reconhecer que a estratégia de apaziguamento atingiu seu ponto máximo e que será preciso adotar uma linguagem mais clara e firme contra os Estados Unidos."
Simultaneamente, segundo o analista, existem forças influentes dentro da própria Casa Branca interessadas em enfraquecer deliberadamente as lideranças europeias com o objetivo final de desmantelar a União Europeia. "A UE é uma pedra no sapato de Trump, porque é muito mais fácil negociar com Estados individuais do que com um bloco coeso que representa aproximadamente 500 milhões de pessoas", afirma Masala. Esse objetivo também explicaria a preferência explícita de Washington por partidos de ultradireita e extrema direita na Europa, como a AfD na Alemanha, a Reunião Nacional de Marine Le Pen na França e o Reform UK de Nigel Farage no Reino Unido.
"Esses partidos são visceralmente hostis à União Europeia. Se chegarem ao poder, certamente tentarão enfraquecer o bloco de forma sistemática, o que é de enorme interesse estratégico para o governo Trump", analisa. Masala avalia, porém, que essas forças políticas enfrentam agora uma situação mais delicada e complexa após a campanha agressiva de Trump em torno da Groenlândia. "Eles percebem que grande parte da população europeia passou a se posicionar contra o governo do republicano. E não querem perder esses eleitores, por isso ensaiam um cuidadoso distanciamento de Trump", observa.
Diferenças regionais e posicionamento brasileiro
Questionado sobre as ações intervencionistas de Washington em relação à Europa e à América Latina, o pesquisador aponta uma diferença central e significativa. "Os Estados Unidos veem a América Latina como seu quintal natural e a Europa como irrelevante em certos aspectos. De repente, fala-se em Hemisfério Ocidental, em esfera de influência direta dos EUA. A Europa, por sua vez, precisa se virar sozinha. Ambas as posições são profundamente ruins para os continentes envolvidos", conclui Masala.
Em meio a esse cenário geopolítico complexo, o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva declarou que terá uma conversa olho no olho com Donald Trump e que somente não discutirá questões de soberania territorial. O petista também afirmou que o encontro, que deverá acontecer em março, é importante porque os dois líderes não podem "ficar conversando por Twitter", em referência direta à rede social atualmente conhecida como X. Essa declaração adiciona uma nova camada às relações internacionais em um momento de particular sensibilidade diplomática.