Operação no Rio mira território lucrativo onde Comando Vermelho avança sobre milícias
O governo do estado do Rio de Janeiro enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um plano ambicioso para retomar territórios conflagrados na recém-criada Zona Sudoeste da cidade. A região tornou-se palco de uma guerra brutal entre o Comando Vermelho, a maior quadrilha de narcotraficantes do estado, e as milícias que historicamente dominavam a área.
Zona Sudoeste: novo cenário de conflito
Historicamente dividido em quatro zonas, o município do Rio passou por transformação territorial no final do ano passado com a criação da Zona Sudoeste. Esta abrange desde os condomínios de alto padrão da Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes até favelas como Rio das Pedras, Muzema e Gardênia Azul, berço das milícias cariocas.
A convivência entre os dois mundos sempre foi tensa, mas complicou-se tremendamente com os intensos ataques do Comando Vermelho. Há dois anos, a facção vem se apoderando de territórios milicianos, impondo domínio ainda mais escancarado e elevando o nível de terror entre os moradores.
Plano de retomada aguarda aval do STF
Diante dos malefícios da ação dos bandidos em uma região que seria mais um cartão-postal do Rio, o governo estadual enviou ao STF, no fim de dezembro, amplo plano de retomada. O foco central é justamente a Zona Sudoeste, incluindo não só incursão de agentes armados, mas também ambição de restabelecer a presença do poder público na oferta de serviços básicos como educação, infraestrutura e assistência social.
Do aval do STF, aguardado para as próximas semanas, depende o sinal verde para a operação do governo Cláudio Castro. Não será tarefa fácil o enfrentamento, reconhecem autoridades.
Território estratégico e lucrativo
O Comando Vermelho controla atualmente Gardênia Azul e Muzema, ainda que com focos de reação das milícias, enquanto tenta abocanhar a joia mais cobiçada: Rio das Pedras, QG miliciano considerado golpe certeiro na batalha pela dominação do crime na cidade.
A área que reúne as três favelas é crucial estrategicamente, por situar-se perto de vias expressas e ser cercada de florestas preservadas como os parques nacionais da Tijuca e da Pedra Branca, usados por criminosos como rotas de fuga e comércio ilegal.
"Estrategicamente, é um eixo importantíssimo. É possível acessar a Zona Norte pelo alto ou pela mata, e a Linha Amarela leva a outras artérias vitais", explica o secretário de Segurança, Victor Santos.
Negócios ilegais movimentam bilhões
Antes de virar Zona Sudoeste, a região foi laboratório dos criminosos nos meandros da exploração territorial, responsável por multiplicar exponencialmente os lucros das quadrilhas. "Os negócios entre o legal e o ilegal foram muito bem estabelecidos pela milícia, não só nas favelas, mas também no entorno, em sub-bairros", explica Daniel Hirata, pesquisador da UFF.
Quando os traficantes do CV chegaram, encontraram rede consolidada e puseram-se a ampliá-la. No conjunto de comunidades:
- Taxas para internet (cerca de 110 reais por morador) movimentam 3 milhões de reais por mês
- Venda de botijões de gás (140 reais) gera outros 4 milhões mensais
- No ramo imobiliário, calcula-se rendimento de 10 bilhões de reais em 2025 com construção, aluguel e venda de imóveis quase sempre irregulares
Um fenômeno são os condomínios antes dominados por milicianos e que passaram para controle de traficantes. Até vagas de estacionamento na rua têm preço alto.
Violência que não respeita fronteiras
As disputas entre bandidos, de olho no xadrez geopolítico do crime, não dão trégua. Em 2025, registrou-se média de ao menos dois tiroteios por mês nas três favelas, resultando em dezenove mortes, conforme levantamento do Instituto Fogo Cruzado. Na Zona Sudoeste em geral, a conta chega a 121 mortes violentas de janeiro a novembro do ano passado.
A violência não fica circunscrita aos domínios da bandidagem. De acordo com o Fogo Cruzado, houve 38 tiroteios na Barra da Tijuca e no Recreio em 2025, avanço de 22% em um ano. "Com presença mais forte das facções e milícias, cria-se clima de tensão permanente", afirma Carlos Nhanga, coordenador do instituto.
O médico Rodrigo Silva, 27 anos, residente há mais de duas décadas na Barra, relata: "Uma vez, um carro foi alvejado em frente ao shopping VillageMall, pouco antes de eu passar por lá". Até o condomínio Península, um dos mais nobres da Zona Sudoeste, não passa ileso: há registros de projéteis entre prédios luxuosos.
Desafios da operação
Apesar de manifestar-se favoravelmente ao novo plano de ocupação, a Defensoria Pública demonstrou preocupação quanto à exposição de moradores aos inevitáveis embates entre criminosos e forças de segurança.
O próprio governo reconhece que a luta está longe de terminar. Em outubro do ano passado, operação policial nos complexos da Penha e do Alemão chegou ao quartel-general do CV e trouxe grande prejuízo à facção, resultando em 122 mortes. Porém, assim que os agentes saíram das favelas, bandidos armados voltaram a instaurar a rotina do medo.
Que a nova iniciativa de reverter os desmandos do crime ocorra de forma planejada e persistente, essencial para que qualquer ação de tal natureza resista ao tempo. A população agradece.