O secretário municipal de Esporte, Lazer e Juventude de São Caetano do Sul, Mauro Roberto Chekin, gerou forte repercussão ao chamar a inclusão de pessoas com deficiência no esporte de “problema” e afirmar que “não consegue” trabalhar com esse público. A declaração foi feita durante uma audiência pública na Câmara Municipal, ocorrida nesta terça-feira (6).
Declarações polêmicas
Durante a sessão, ao ser questionado pela vereadora Bruna Biondi (PSOL) sobre políticas de inclusão, Chekin afirmou: “Com relação ao autista, nós temos um problema muito grande com autista e qualquer [pessoa com deficiência]”. O secretário também relatou o caso de uma mãe que procurou a prefeitura para incluir a filha em aulas de natação. “Veio uma mãe que quis uma inclusão com a filha dela para ela ser incluída na aula de natação. [...] A menina usa fralda. Como é que eu posso pôr a menina dentro da água de fralda? [...] nós temos que orientar a mãe a comprar essa fralda de natação”, disse.
Chekin ainda comentou que a menina teria se incomodado com o barulho e “tapado os ouvidos” no início da aula. Ele declarou que nem todos os profissionais são capacitados para atuar com inclusão. “Hoje, com esse problema da inclusão social, que eu acho importante, acho que tem que ser feita, mas nós temos que tomar muito cuidado com os esportes”, afirmou.
O secretário também compartilhou uma experiência pessoal durante a faculdade de educação física. “Eu entrei na piscina, saí da piscina e falei: 'Se for para trabalhar desse jeito, não quero nunca mais voltar aqui'. A minha condição psicológica e física é muito frágil para esse tipo de coisa”, declarou. Ele ainda disse: “A inclusão é um dever do Estado, mas não é um dever meu, pessoa física. Eu não posso chegar e obrigar um profissional e falar assim: 'Você vai trabalhar lá'”.
Reação da vereadora
A vereadora Bruna Biondi rebateu as declarações. “É a mesma coisa de a gente falar que a educação não tem que garantir a inclusão de crianças com deficiência na rede municipal ou que um professor que não quiser dar aula para uma criança com deficiência pode simplesmente não dar. É parte da profissão, é parte da formação profissional, é parte do dever se aquele funcionário trabalha para o Estado. Ele não tem opção. Nem mesmo se trabalhasse num setor privado. É discriminação.”
Repúdio do Ministério do Esporte
O Ministério do Esporte repudiou “com veemência” as falas, classificando-as como “profundamente capacitistas”. Em nota, a pasta afirmou que “o esporte brasileiro deve ser espaço de inclusão, diversidade, respeito e dignidade para todos”. O ministério informou que fará contato institucional com a Prefeitura de São Caetano do Sul para oferecer orientações técnicas e materiais voltados à inclusão.
Posicionamento do Comitê Paralímpico Brasileiro
O Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) também divulgou nota de repúdio, classificando as declarações como “discriminatórias e inadmissíveis”. “A inclusão é um direito e um compromisso constitucional e civilizatório que deve ser defendido e promovido por todos os agentes públicos”, afirmou. O CPB destacou que São Caetano do Sul tem histórico vinculado ao Movimento Paralímpico nacional, tendo sido polo de treinamento das seleções brasileiras de atletismo e natação paralímpicos.
Resposta da Prefeitura
A Prefeitura de São Caetano do Sul afirmou, em nota, que possui “compromisso histórico” com políticas públicas de inclusão e destacou investimentos em programas voltados às pessoas com deficiência. Citou a inauguração do Complexo Unificado de Inclusão, Desenvolvimento, Apoio e Reabilitação (Cuidar), em 25 de abril, e ações do Núcleo de Apoio à Educação Inclusiva (NAEI). A administração municipal declarou que “a pauta da inclusão exige evolução constante” e que “erros, apesar de imperdoáveis, são compreensíveis, dada a complexidade e importância desta pauta”.



