Ministro do PSOL ganha protagonismo no núcleo decisório do Palácio do Planalto
As recentes mudanças no primeiro escalão do governo federal consolidaram o espaço do chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), junto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com a desincompatibilização dos ministros que se tornaram candidatos nas eleições, Boulos ampliou significativamente sua influência na chamada cozinha do Planalto, participando inclusive das reuniões semanais do conselho de campanha do petista.
Trajetória de ascensão no governo
A expansão da atuação de Boulos ocorreu principalmente nos últimos meses. Ao assumir o cargo em 29 de outubro, o ministro recebeu inicialmente tarefas de visibilidade externa, distantes do núcleo decisório do Palácio do Planalto. Entre suas atribuições estavam a defesa do governo nas redes sociais, a relação com movimentos sociais e o fortalecimento da presença do Executivo nas cidades, através do programa Governo do Brasil na Rua.
Naquele momento, Lula também atribuiu a Boulos a articulação da regulamentação do trabalho por aplicativos e do fim da escala 6x1. Como uma espécie de porta-voz, o ministro viu sua lista de responsabilidades aumentar à medida que o pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro, crescia nas pesquisas de opinião, sendo inclusive escalado para negociações com caminhoneiros.
Integração ao núcleo estratégico eleitoral
Para auxiliares do presidente, a surpresa está na rápida integração de Boulos ao grupo que discute estratégia eleitoral. Filiado ao PSOL, ele é atualmente um forasteiro no conselho composto por aliados históricos do presidente, quase todos petistas.
Como revelado, Lula tem recebido regularmente o núcleo de sua pré-campanha para debates de conjuntura e definição de estratégia político-eleitoral. Entre os participantes estão futuros integrantes do comitê eleitoral, como o presidente do PT, Edinho Silva, seu coordenador-geral; o ex-presidente da Petrobras Sérgio Gabrielli, responsável pela elaboração do programa de governo; e o ex-prefeito de Diadema (SP) José de Filippi Jr., futuro tesoureiro.
O grupo ainda conta com o senador e ex-ministro da Educação Camilo Santana (PT-CE), o presidente da Fundação Perseu Abramo, Paulo Okamotto, o ex-ministro Gilberto Carvalho e a dirigente petista Mônica Valente. O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, e o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, também são ouvidos pelo presidente na construção da candidatura à reeleição. O marqueteiro deve ser Raul Rabelo, publicitário próximo de Sidônio.
Prestígio confirmado e desafios internos
Nesta quarta-feira (8), o próprio Lula atestou o prestígio de seu ministro ao confirmar o envio de um projeto para acabar com a escala 6x1. A decisão havia sido anunciada anteriormente por Boulos, mas enfrentou contestação de parlamentares e até mesmo de integrantes do governo.
A trajetória de Boulos não foi imune a quedas de braço com seus pares. Ele atraiu a ira de colegas por ter sido um dos principais articuladores da revogação de um decreto presidencial sobre um programa de concessão de hidrovias na região amazônica. O projeto enfrentava resistências de comunidades indígenas da região do Tapajós, no Pará, mas contava com apoio de outros ministérios, como a Casa Civil. Boulos negociou a revogação diretamente com o presidente.
Limites da influência e especulações políticas
Conhecedores de Lula ressaltam que a participação no conselho não significa acesso automático ao seleto grupo de interlocutores do presidente, integrado, por exemplo, pelos ex-ministros Fernando Haddad, Gleisi Hoffmann e Rui Costa, todos do PT. O trio deixou seus cargos para disputar a eleição, dois deles a pedido do próprio presidente. Boulos, por sua vez, optou por permanecer no governo.
Esta é a primeira vez que o trabalho de Boulos é observado de perto pelo presidente. Em 2024, Lula se empenhou pela candidatura do psolista à Prefeitura de São Paulo, mas nunca trabalhou diretamente com ele anteriormente.
O mundo político especula há anos sobre a possibilidade de Boulos migrar para o PT, partido maior e com mais capacidade de projetar candidaturas fortes. No início de março, o PSOL se recusou a entrar em uma federação com o partido de Lula, em uma derrota para o ministro. Ele também aparece como possível sucessor político de Lula, que completa 81 anos em outubro. Para isso, terá de entrar em uma fila composta por petistas.
Contexto da candidatura de Lula
O presidente se elegeu em 2022 prometendo que não disputaria um novo mandato. Após a posse, porém, passou a afirmar que cogitava concorrer mais uma vez. Em declarações públicas, afirmou que a candidatura dependeria de estar bem de saúde. O mandatário completará 81 anos em outubro, o que adiciona um elemento significativo às discussões sobre sua reeleição.



