Relatos de experiências de quase morte (EQM) voltaram a ganhar destaque após reportagem especial do Fantástico, exibida no último domingo, que acompanhou um congresso internacional sobre o tema no Porto, em Portugal. Pessoas de perfis completamente diferentes, como uma pedagoga, um ex-jogador de futebol e um músico, contaram ter vivido sensações surpreendentemente semelhantes ao ficar entre a vida e a morte.
O que são experiências de quase morte?
As chamadas experiências de quase morte costumam ser relatadas por indivíduos que passaram por parada cardíaca, acidentes graves ou situações extremas e sobreviveram. Entre os relatos mais comuns estão sensação de paz, visão de um túnel de luz, encontros com parentes já falecidos, revisão da própria vida e a impressão de estar fora do próprio corpo. Para parte da comunidade científica, esses fenômenos são explicados por reações químicas e processos cerebrais em momentos críticos. Para outros pesquisadores, no entanto, ainda há perguntas sem resposta, especialmente quando os relatos incluem detalhes posteriormente confirmados por terceiros.
Relatos marcantes
A pedagoga Josivânia afirmou ter passado por três experiências desse tipo. As duas primeiras ocorreram aos 12 e 17 anos, quando desmaiou ao sofrer violência doméstica. "Eu me via fora do corpo. É como se tivesse saído de mim. É uma espécie de um foco de luz", contou. A terceira e mais marcante aconteceu durante um parto de alto risco, aos 20 anos. Segundo ela, ouviu médicos falando em atestado de óbito enquanto observava a cena de fora do corpo. "Eu disse: não, mas eu tô viva, o senhor não tá me vendo não", relatou.
Oscar, ex-atacante do São Paulo Futebol Clube, viveu algo semelhante após passar mal durante exames de rotina. "Eu só lembro de ter aqueles sonhos que as pessoas falam que você sai um pouquinho do corpo", disse. Ele também recorda ter ouvido a voz do filho pedindo que voltasse: "'Volta pai, volta!'"
O músico Clemente Nascimento, da banda Inocentes, relatou sua experiência após uma grave dissecção da aorta em 2025. Durante sete horas de cirurgia, diz ter revisto momentos marcantes da vida e encontrado amigos que já morreram. "Eu tive momentos de viagem completa, de você fazer aquele famoso filme da vida", contou.
Já o professor da Universidade de São Paulo Ilson Silveira relatou o que viveu após um acidente de carro em Lisboa, em 2012. "Absolutamente escuro. Mas esse lugar tinha um ponto de luz lá na frente", disse. Segundo ele, uma voz tranquila afirmou que ainda não era sua hora.
O debate científico
O congresso no Porto reuniu cientistas que tentam explicar esses fenômenos na fronteira entre ciência e espiritualidade. A neurocientista Charlotte Martial defende que as EQM podem ser explicadas por reações químicas no cérebro. Segundo ela, uma crise fisiológica grave provoca uma tempestade de neurotransmissores capaz de gerar percepções intensas e memórias complexas.
No outro lado do debate, pesquisadores como Etzel Cardeña e Marieta Pehlivanova argumentam que a ciência ainda não explica totalmente casos em que pessoas relatam detalhes depois confirmados por terceiros. Para eles, a consciência pode envolver processos ainda desconhecidos.
Transformações após a experiência
Independentemente da explicação, todos os entrevistados disseram que voltaram transformados. Oscar encerrou a carreira pouco depois. Ilson tornou-se espírita. Josivânia afirma que perdeu o medo de contar o que viveu. Clemente resumiu a mudança citando o poeta Belchior: "Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro."



