O conflito entre Estados Unidos e Irã se prolonga além do esperado pelo presidente Donald Trump, e a dificuldade em subjugar Teerã chama a atenção da China, maior rival geopolítico americano. Segundo reportagem do jornal The New York Times, o desgaste do poder de fogo dos EUA tem feito Pequim reavaliar se os americanos têm capacidade de dissuasão para evitar uma invasão de Taiwan.
Impacto militar e psicológico
Autoridades do Congresso dos EUA estimam que as Forças Armadas americanas utilizaram cerca de metade de seus mísseis de cruzeiro furtivo desde o início do conflito, em 28 de janeiro, e dispararam dez vezes mais mísseis Tomahawk do que compram anualmente. Além do aspecto bélico, a dificuldade em lidar com o regime iraniano destruiu a aura de domínio que emanava de Washington, enfraquecendo a posição americana na próxima cúpula entre Trump e o líder chinês, Xi Jinping, marcada para 14 de maio.
O general aposentado do Exército de Libertação Popular da China, Yue Gang, afirmou ao NYT: “Ele pretendia visitar a China com a aura de um líder que obteve uma vitória rápida, aproveitando sua posição para intensificar a pressão sobre Pequim. Com o conflito estagnado e a campanha militar paralisada, ele se encontra em uma posição difícil e não será capaz de projetar a mesma arrogância.”
Reavaliação chinesa
Analistas militares chineses argumentam que, se lidar com uma potência regional como o Irã já é um desafio, os EUA teriam ainda menos sucesso em confrontar Pequim, rival à altura. Isso é especialmente relevante no contexto da disputa por Taiwan, ilha que a China considera seu território, apesar do autogoverno democrático apoiado pelos americanos.
Agenda da cúpula
Entre os principais objetivos de Trump na visita estão acordos comerciais para reduzir o déficit com a China, incluindo compromissos para compra de soja americana e aviões da Boeing. O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que Trump também pretende pressionar Xi sobre as importações de petróleo iraniano — quase 90% da produção do Irã vai para a China, apesar das sanções.
Pequim, por sua vez, busca estabilizar os laços com Trump e revitalizar sua economia através da trégua na guerra comercial. No entanto, o principal diplomata chinês, Wang Yi, sinalizou que as relações dos EUA com Taiwan estarão na agenda, incluindo a venda de armas americanas para Taipei.
Cautela chinesa
Antes do encontro, a China manteve cautela sobre a guerra no Irã, sem críticas abertas às ações de Trump, exceto quando Xi mencionou um “retorno à lei da selva” devido à violação do direito internacional, sem citar nomes. A mídia estatal chinesa evitou comentar as dificuldades americanas no conflito, mas elas não passaram despercebidas.
O ex-editor do jornal nacionalista chinês Global Times, Hu Xijin, declarou: “Se a China e os Estados Unidos estivessem jogando xadrez, e a aposta fosse o Estreito de Taiwan, os americanos estariam à beira de perder todas as suas peças.”
Em meio às especulações, Washington rejeita qualquer posição de fraqueza. O almirante Samuel J. Paparo Jr., chefe do Comando Indo-Pacífico, afirmou em audiência no Senado: “A guerra não impôs nenhum custo real à nossa capacidade de fazer frente à China.”



