45 anos da 'Noite do Beijo': o dia em que milhares de jovens desafiaram a ditadura
Em 7 de fevereiro de 1981, durante o período sombrio da Ditadura Militar brasileira, um protesto singular reuniu milhares de jovens na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo. Batizado de "Noite do Beijo", o ato completará 45 anos em 2026 e permanece como um marco histórico na luta por liberdades individuais. O evento foi uma resposta direta a uma portaria emitida por um juiz local, que proibia expressões de afeto em praças públicas, classificando certos beijos como atos obscenos.
O estopim: uma portaria que proibia o afeto público
A ordem do então juiz de direito Manuel Moralles causou indignação imediata. Em seu texto, ele descrevia beijos no pescoço e os chamados "beijos cinematográficos" como gestos libidinosos e obscenos, justificando a proibição com uma linguagem que muitos consideraram excessivamente repressiva. Para uma juventude já asfixiada pelo autoritarismo do regime militar, essa medida representou a gota d'água. "Fomos pegos de surpresa. Era uma época de carnaval e férias, então duvidávamos que houvesse muita mobilização", relembra o artista gráfico Carlos Baptistella, um dos idealizadores do protesto.
A organização: uma mobilização liderada pelos jovens
Apesar da desconfiança inicial, a indignação se transformou em ação em poucos dias. Os manifestantes organizaram uma passeata pacífica que começou com cerca de 300 pessoas e, para surpresa de muitos, terminou reunindo mais de 5 mil participantes. A organização partiu exclusivamente dos jovens, sem apoio de partidos políticos ou sindicatos estabelecidos. Pedro Cadina Jr., conhecido como Tuco, que na época tinha 20 anos e foi uma figura central do movimento, relata que até mesmo o nascente Partido dos Trabalhadores (PT) demonstrou reticências. "Diziam que podia causar tumulto, nos levar presos. Enfim, nos chamavam de irresponsáveis por fazer esse tipo de manifestação", completa Tuco.
A noite do protesto: um grito coletivo por liberdade
Na noite do ato, a Praça Coronel Fernando Prestes foi tomada por cartazes criativos, música engajada e poesia de protesto. O sentimento coletivo ecoava em um coro uníssono: "Mais beijo, mais pão, abaixo a repressão". A manifestação transcendia a mera rejeição à proibição do juiz, transformando-se em um poderoso grito por liberdade e democracia. Carlos Baptistella contextualiza: "A 'Noite do Beijo' foi uma pedrinha na calçada para reconquistarmos a democracia. A juventude já estava cansada da repressão, da censura, da carestia".
A repressão e as consequências duradouras
A resposta do regime militar foi imediata e dura. Policiais à paisana monitoraram todo o ato e, ao final, a perseguição aos organizadores se intensificou. Tuco recorda com clareza: "Foi uma coisa assustadora. Eu tinha 20 anos e comecei a ser perseguido pela polícia. As rádios noticiavam que a Polícia Federal estava à procura dos organizadores". Ele e Baptistella, por serem maiores de idade, chegaram a enfrentar a ameaça de enquadramento na temida Lei de Segurança Nacional. As consequências foram profundas e duradouras: sem conseguir emprego em Sorocaba após o evento, Tuco foi forçado a se mudar para São Paulo.
O legado: mais que um protesto, um ato político
O jornalista Júlio Gonçalves, que cedeu sua casa como "quartel-general" para as reuniões preparatórias, destaca a importância de compreender o evento para além de um mero protesto comportamental. "Minha contribuição foi fazer a leitura de que se tratava de uma resposta política e comportamental aos desmandos de um regime", reflete. Quatro décadas depois, a "Noite do Beijo" permanece na memória coletiva como um ato de coragem singular. Usando o afeto como forma de resistência, o protesto ajudou a expor as fissuras de uma ditadura em seus anos finais, demonstrando que mesmo a luta por um direito aparentemente simples – como beijar em público – podia carregar a força transformadora de uma revolução silenciosa.
O evento ganhou recentemente novas camadas de significado com a criação de um fanzine comemorativo dos 45 anos, que resgata fotografias, depoimentos e a atmosfera daquela noite histórica. A "Noite do Beijo" segue como um testemunho eloquente do poder da mobilização juvenil e da resistência civil em períodos de opressão, lembrando às novas gerações que a defesa das liberdades individuais é uma conquista permanente e sempre necessária.