O mundo aguarda com apreensão o fim da noite desta quarta-feira (4), quando expira oficialmente o prazo para a renovação do Tratado de Redução de Armas Estratégicas, conhecido como New START. Este pacto histórico, que limita o arsenal nuclear da Rússia e dos Estados Unidos desde os tempos da Guerra Fria, está prestes a chegar ao seu término sem sinais claros de um novo acordo entre as duas superpotências atômicas.
O Fim de uma Era de Controle Nuclear
Na prática, o New START estabelece restrições rigorosas sobre o arsenal estratégico de cada país, limitando-os a um máximo de 1.550 ogivas nucleares e 800 sistemas de lançamento. A possível expiração deste tratado eleva significativamente os temores de uma nova e perigosa corrida armamentista entre as duas maiores potências nucleares do planeta, que juntas concentram a esmagadora maioria das armas atômicas existentes.
Os Números que Assustam o Mundo
Rússia e Estados Unidos possuem, com folga, os maiores arsenais nucleares do mundo. Estima-se que cada país tenha mais de 5 mil ogivas atômicas em seu poder, sendo que o total inclui tanto armamentos ativos quanto desativados e armazenados. Moscou aparece em primeiro lugar, com impressionantes 5.459 ogivas, enquanto os Estados Unidos contam com 5.177. Em terceiro lugar, bem distante, está a China, com aproximadamente 600 ogivas nucleares.
É justamente o rápido crescimento do arsenal nuclear chinês – com cerca de 100 novas ogivas desenvolvidas apenas em 2023 – que tem sido apontado pelo presidente americano Donald Trump como a principal justificativa para o possível abandono do New START. Em declarações ao New York Times em janeiro, Trump afirmou que, se o tratado expirar, "ele vai expirar", acrescentando que buscaria "um acordo melhor" no futuro.
Posicionamentos Divergentes e Falta de Diálogo
Do lado russo, houve uma proposta do presidente Vladimir Putin para a renovação do New START por um ano, ainda em setembro de 2025. No entanto, a paciência de Moscou parece ter se esgotado. "A falta de resposta também é uma resposta", afirmou recentemente Sergei Ryabkov, vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, durante visita a Pequim. Segundo ele, o país está preparado para uma realidade em que as duas maiores potências nucleares não terão limites pela primeira vez em décadas.
A China, por sua vez, rejeita firmemente a proposta de inclusão em negociações de controle nuclear. Para o governo chinês, essa demanda não é "justa nem razoável", já que a capacidade nuclear do país "não é comparável em escala" à dos Estados Unidos, conforme declarou um porta-voz oficial nesta quarta-feira.
Histórico dos Acordos e Seu Impacto Global
O New START não foi o primeiro acordo desse tipo na história das relações entre as potências nucleares. O START 1 foi assinado em 1991, ainda no final da Guerra Fria, e entrou em vigor em 1994. O START 2, definido em 1993, acabou abandonado após tensões entre Moscou e Washington no início dos anos 2000. Em 2010, Barack Obama e Dmitri Medvedev assinaram o New START, que passou a valer no ano seguinte.
Esses tratados, juntamente com os esforços mundiais para a redução dos riscos de uma guerra nuclear, produziram efeitos significativos. Em 1986, o total de ogivas nucleares no mundo alcançava a impressionante marca de 70 mil unidades. Em 2025, no entanto, esse número havia caído para aproximadamente 12 mil, demonstrando o impacto positivo dos acordos de controle armamentista.
Mecanismos de Controle em Colapso
Além de limitar o número de ogivas atômicas, o New START também estabelecia mecanismos importantes de controle mútuo das instalações nucleares, por meio de inspeções regulares e troca sistemática de dados. O objetivo principal era eliminar a possibilidade de um dos dois países lançar "acidentalmente" um ataque nuclear devido à má interpretação das informações do outro lado.
No entanto, no contexto atual, esses mecanismos deixaram de funcionar como previsto. A pandemia de Covid-19 levou, em 2020, à suspensão das inspeções locais. Dois anos depois, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, Putin rejeitou completamente as vistorias e a troca de dados com os Estados Unidos, que também deixaram de compartilhar com Moscou as informações exigidas no âmbito do tratado.
Consequências Potenciais do Fim do Acordo
Especialistas em segurança nuclear alertam para as graves consequências que a expiração do New START pode trazer para a estabilidade global. Matt Korda, diretor do Projeto de Informação Nuclear da Federação de Cientistas Americanos, afirmou à Reuters que "sem o tratado, cada lado ficará livre para acrescentar centenas de ogivas aos seus mísseis e bombardeiros pesados, praticamente dobrando o tamanho de seus arsenais existentes".
Daryl Kimball, diretor da Associação de Controle de Armas em Washington, complementou ao The Guardian que "há muitas pessoas no establishment nuclear que querem aumentar rapidamente o tamanho da potência dos EUA para combater o fortalecimento estratégico da China". Segundo ele, o fim do New START também pode afetar negativamente o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que será revisado em 2026.
Reações Internacionais e Preocupações Globais
Até mesmo o papa Leão XIV juntou-se aos apelos de comunidades civis e científicas por um entendimento de última hora. "A situação atual exige que se evite uma nova corrida armamentista que ameaça ainda mais a paz entre as nações", declarou o líder da Igreja Católica nesta quarta-feira.
Na Europa, o possível fim do New START, em meio aos conflitos na Ucrânia e às tensões envolvendo a Groenlândia, reacendeu o debate atômico entre os líderes do continente. O chanceler alemão Friedrich Merz admitiu conversas iniciais com França e Reino Unido sobre um possível sistema europeu de defesa nuclear.
Para a Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (ICAN), o futuro é incerto e profundamente preocupante. A organização não governamental alertou que "embora os arsenais nucleares da Rússia e dos EUA, mesmo com os limites do New START, já representassem uma ameaça inaceitável para a humanidade, sem ele, o risco do uso de armas nucleares provavelmente aumentará, devido à possibilidade de uma corrida armamentista nuclear intensificada".
Enquanto o relógio avança em direção ao prazo final, o mundo observa com preocupação crescente o que pode significar o primeiro dia em décadas em que as duas maiores potências nucleares do planeta operem sem qualquer limite formal sobre seus arsenais atômicos.