Embaixador brasileiro em Teerã relata horror da guerra: 'Não é videogame'
Embaixador brasileiro relata horror da guerra no Irã

Embaixador brasileiro em Teerã descreve realidade brutal da guerra: 'Não é videogame'

André Veras Guimarães, embaixador do Brasil em Teerã, sintetiza com uma frase contundente sua experiência durante as primeiras semanas do conflito no Irã: "Guerra não é videogame." Aos 59 anos, o diplomata relata os bombardeios cotidianos realizados por Estados Unidos e Israel que destruíram alvos na capital e em diversas regiões do país, transformando sua rotina em um pesadelo constante.

Vivendo sob bombardeios

Morador do último andar de um prédio residencial, Veras perdeu as contas das vezes em que despertou de madrugada com estrondos e tremores nas paredes, testemunhando pela janela a explosão de edifícios próximos. "Ninguém consegue passar incólume por uma situação dessas. Eu vejo aqui tudo acontecendo", afirmou o embaixador em entrevista por telefone à BBC News Brasil na última terça-feira (14/4), quando o conflito completou 46 dias.

Segundo estimativas mais recentes do governo iraniano, a guerra já causou a morte de mais de 3,5 mil iranianos em investidas que, apesar de toda a tecnologia disponível, nada têm de precisas ou cirúrgicas. "Uma autoridade iraniana morta em um bombardeio leva consigo mais 15 pessoas, outros tantos feridos e muitas estruturas destruídas", lamenta Veras.

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Dano colateral: uma definição que suaviza o horror

O embaixador critica veementemente o uso do termo "dano colateral", frequentemente invocado para referir-se a ataques a alvos civis, classificando-o como uma maneira de "suavizar o impacto e humanizar a guerra." Para Veras, dano colateral é a destruição de prédios que não eram os alvos militares, são os feridos, os mortos, o hospital atingido porque o edifício ao lado foi atacado.

"É muito importante que a gente pense na normalização de certos atos e no apoio a certas medidas que não queremos que aconteçam no nosso próprio país", alerta o diplomata, destacando a importância de manter a perspectiva humanitária mesmo em conflitos distantes.

Escolas e hospitais no alvo

Veras cita o trágico exemplo da Escola Primária Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab, destruída por um míssil americano no primeiro dia da guerra, deixando 175 mortos, a maioria meninas. Questionado sobre o incidente, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, respondeu: "Eu não sei nada sobre isso."

Um levantamento do jornal The New York Times identificou danos a 22 escolas e 17 instituições de saúde desde o início do conflito, com verificação baseada em imagens de satélite de alta resolução e checagem de vídeos da mídia estatal e redes sociais. Porém, os estragos podem ser ainda maiores: a Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano afirmou em 2 de abril que ao menos 763 escolas e 316 unidades de saúde foram danificadas ou destruídas.

Trégua temporária e apreensão constante

A rotina de bombardeios diários interrompeu-se no dia 7 de abril, quando Estados Unidos e Irã anunciaram um cessar-fogo de duas semanas, condicionado à abertura do Estreito de Ormuz. "Até aquele momento, os ataques eram diários e podiam acontecer a qualquer momento, de dia ou à noite", descreve Veras.

Embora Teerã esteja em relativa calma desde o início da trégua, a expectativa entre a população, segundo o embaixador, é de que as hostilidades recomecem após o fracasso da rodada de negociações entre os dois lados ocorrida em Islamabad, Paquistão, no último fim de semana. A atmosfera local é descrita como de "apreensão, expectativa e medo" sobre o que possa ser agora objeto desses ataques.

Retórica belicista e seus efeitos

Dias antes da trégua, Trump havia ameaçado reiteradamente destruir pontes e usinas elétricas do Irã e, na véspera, escreveu em sua rede social Truth Social: "Uma civilização inteira morrerá hoje à noite." O embaixador observa que, quando um chefe de Estado utiliza esse tipo de linguagem, a população visada crê que está sob ameaça de crime de guerra ou genocídio.

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"É claro que a gente prefere pensar que isso seja muito mais um elemento de pressão sobre o regime iraniano. Quando vem de um país que dispõe de armas nucleares e num sistema internacional em que as próprias autoridades americanas dizem que as regras não valem mais, que a regra é a do mais forte, isso causa muita apreensão", analisa Veras.

Resiliência iraniana e situação dos brasileiros

O anúncio pelos Estados Unidos de um suposto bloqueio a portos do Irã no Golfo Pérsico no início da semana não produziu, segundo Veras, nenhum impacto visível na vida cotidiana. A sociedade iraniana viveu sob sanções econômicas diretas e indiretas dos Estados Unidos pela maior parte da história recente, o que, na avaliação do embaixador, fez com que ela se tornasse resiliente e autossuficiente em diversos segmentos.

"Desde o dia 28 de fevereiro, os iranianos agem com altivez e força diante da guerra. Os supermercados em nenhum momento ficaram desabastecidos. Em nenhum momento faltou energia e, quando aconteceu em alguma região específica, foi rapidamente resolvido", relata.

Veras foi nomeado para o posto no dia 6 de junho de 2025, exatos sete dias antes do início da chamada Guerra dos 12 Dias, quando forças norte-americanas e israelenses atingiram instalações nucleares e militares no Irã, e chegou a Teerã antes do final do mês. Dos cerca de 180 brasileiros que havia no país antes de 28 de fevereiro, quando se iniciaram os ataques deste ano, ele calcula que cerca de 60 a 70 tenham deixado o país sem dificuldade por via rodoviária, aproveitando que as fronteiras do Irã com Turquia, Armênia, Azerbaijão, Afeganistão e Paquistão permanecem abertas.