Lula costura alianças em churrasco na Granja do Torto para eleições de 2026
Lula reúne oposição em churrasco para alianças eleitorais de 2026

Lula inicia costura de alianças para 2026 em encontro na Granja do Torto

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu início à articulação política para as eleições de 2026 com um encontro estratégico na Granja do Torto. Na quarta-feira, 4 de fevereiro, o mandatário reuniu o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta do Republicanos da Paraíba, e líderes dos partidos de oposição que integram o governo federal.

Churrasco político com ausências significativas

O evento, realizado em formato de churrasco, teve como objetivo principal a costura de alianças para o pleito eleitoral do próximo ano. Apenas os notórios oposicionistas do Partido Liberal, de Jair Bolsonaro, e do Novo, do governador Romeu Zema de Minas Gerais, foram excluídos do encontro. A reunião contou com a presença das lideranças do Partido dos Trabalhadores na Câmara e no Senado, além de ministros-chave do governo.

Entre as autoridades presentes estavam Gleisi Hoffmann, ministra das Relações Institucionais, Fernando Haddad da Fazenda, Rui Costa da Casa Civil, Guilherme Boulos da Secretaria de Governo, Alexandre Silveira das Minas e Energia, e o vice-presidente Geraldo Alckmin. A primeira-dama Janja da Silva compareceu no início e no final do jantar, deixando os participantes à vontade para as conversas políticas.

Do pirarucu às estratégias eleitorais

Curiosamente, o prato principal não foi o pirarucu, peixe gigante da Amazônia que havia sido presenteado ao presidente pelo ministro Alexandre Silveira. Os exemplares transportados de caminhão em uma piscina, de uma fazenda do ministro em Minas Gerais para o lago do Torto, começaram a devorar filhotes de patos e marrecos, sendo condenados à panela. O próximo pirarucu será abatido após o Carnaval para um jantar com senadores que Lula pretende cortejar.

O foco real do encontro foi a construção de alianças para as eleições de 2026, que além de eleger presidente e vice, governadores e vices, renovará 54 dos 81 mandatos do Senado Federal e confirmará ou elegerá novos deputados federais entre os 513 representantes.

Trilha sonora com mensagens políticas

A abertura do evento trouxe um recado musical significativo com a execução de "Disparada", sucesso de Geraldo Vandré e Theo de Barros, cantada originalmente por Jair Rodrigues. A escolha da música, que divide o primeiro prêmio com "A Banda" de Chico Buarque no Festival de Música da TV Record em 1966, não foi casual.

Os versos da composição do paraibano Vandré, conterrâneo do presidente da Câmara Hugo Motta, mexem com as origens rurais da maioria dos políticos brasileiros e se conectam diretamente com a trajetória do presidente Lula, que veio "lá do sertão" de Garanhuns em Pernambuco. A letra que diz "Prepare o seu coração; Pras coisas que eu vou contar; Eu venho lá do sertão" ecoa como mensagem política.

Estratégia para conquistar diferentes eleitorados

Apesar da força da bancada do agronegócio, que representa 11,7% da produção de grãos do país, a música "Disparada" reforça que o grosso do eleitorado brasileiro não está ligado à agricultura mecanizada, mas às realidades dos trabalhadores rurais e urbanos. Esta escolha musical reflete a estratégia de Lula de se conectar com as bases populares enquanto negocia com as elites políticas.

O arco de alianças sonhado por Lula passa pelos partidos aliados Psol, PcdoB, PDT, PSB e Rede, mas também busca atrair Republicanos, PSD de Gilberto Kassab, União e PP. O presidente joga com a capilaridade nacional para conquistar variadas alianças regionais, mantendo forte penetração junto aos eleitores do Norte e Nordeste e renovando a conexão com as periferias urbanas através de programas sociais como o "vale gás".

Contexto eleitoral e desafios econômicos

No terceiro governo, com a Reforma Tributária que já começa a valer parcialmente este ano, Lula busca cumprir a promessa de aliviar o ônus dos impostos indiretos sobre os mais pobres e a classe média. Porém, como alertou o ministro da Fazenda Fernando Haddad, que está deixando o posto este mês, "a economia, sozinha, não ganha a eleição".

Por isso, Lula está convocando Haddad e possivelmente o vice Geraldo Alckmin, ambos com cacife político em São Paulo, maior colégio eleitoral do país com cerca de 23% dos votos, para disputar o governo paulista contra o atual governador Tarcísio de Freitas do Republicanos.

Flávio Dino como paladino da transparência

Paralelamente às articulações políticas, o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino vem combatendo os excessos do Orçamento Secreto e exigindo transparência nas investigações da Polícia Federal sobre desvios de verbas. Recentemente, Dino determinou a ilegalidade dos penduricalhos aprovados pelo Congresso que permitiam quase dobrar os salários dos magistrados com regalias como auxílio transporte e verba para aluguel.

Esta decisão atinge o pleito por reajuste nos altos salários da República e desnudou manobras das duas casas do Congresso de fazer benemerência com auxiliares no último ano da legislatura. A medida dá motivos ao presidente Lula para vetar aumentos sem se indispor diretamente com deputados e senadores.

Pré-campanha e cenário internacional

Na última semana que antecede a pausa do Carnaval, movimentos da pré-campanha eleitoral ganham destaque. O senador Flávio Bolsonaro do Partido Liberal do Rio de Janeiro, candidato declarado do clã Bolsonaro, se apresentará perante a Faria Lima em seminário promovido pelo BTG Pactual nos dias 10 e 11 de fevereiro em São Paulo.

O governo Lula será representado no evento por ministros como Fernando Haddad da Fazenda, Alexandre Silveira das Minas e Energia, Renan Filho dos Transportes e Silvio Costa dos Portos e Aeroportos. A participação mais aguardada é a do Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, que pode dar pistas sobre os futuros movimentos do governo Trump em relação ao Brasil.

Encontro crucial na Casa Branca

Após o Carnaval, e a menos de dois meses do início oficial da campanha eleitoral, o encontro do presidente Lula com Donald Trump na Casa Branca em março pode alavancar ou travar a campanha de reeleição. O resultado dependerá das conquistas em matéria de barreiras tarifárias aos produtos brasileiros, que foram usadas como arma de pressão contra o Brasil durante o governo Bolsonaro.

Trump pode se tornar o fiel da balança entre Lula e os Bolsonaro nas eleições de 2026, tornando a diplomacia internacional um elemento crucial na disputa política doméstica brasileira.