Deputados mais votados de 2022 têm histórico marcado por baixa produtividade legislativa
Quase quatro anos após receberem as votações mais expressivas para a Câmara dos Deputados, os cinco parlamentares mais bem votados nas eleições de 2022 apresentam um histórico marcado por maior atenção a pautas alheias ao trabalho legislativo tradicional. Dois deles, inclusive, já perderam seus mandatos, evidenciando uma trajetória conturbada que contrasta com a expressiva votação recebida.
Os números da votação expressiva
Em números absolutos, os deputados mais votados em 2022 foram: Nikolas Ferreira (PL-MG), com 1.492.047 votos; Guilherme Boulos (PSOL-SP), com 1.001.472 votos; Carla Zambelli (PL-SP), com 946.244 votos; Eduardo Bolsonaro (PL-SP), com 741.701 votos; e Ricardo Salles (PL-SP), com 640.918 votos. Apesar da força eleitoral demonstrada, suas atuações parlamentares foram marcadas por polêmicas e baixa produtividade em termos de projetos aprovados.
Nikolas Ferreira: o parlamentar das redes sociais
O deputado Nikolas Ferreira concentrou seu mandato em ações e discursos voltados para as redes sociais, sem uma atuação de destaque relatando projetos no plenário. Com discursos inflamados e apostando na polarização, o parlamentar não foi escolhido para comandar projetos importantes que exigem articulação política.
Em 2023, ano de estreia na Câmara, Nikolas relatou apenas dois projetos: um sobre bloqueio de contas de congressistas nas redes sociais e outro que agrava a pena para venda de remédios abortivos. Nenhum dos dois foi aprovado até o final daquele ano.
O deputado protagonizou um episódio de transfobia no plenário da Câmara no Dia da Mulher, quando desrespeitou as deputadas Erika Hilton e Duda Salabert ao vestir uma peruca e fazer declarações inadequadas. O caso gerou pedidos de cassação e apuração do MPF, que não prosperaram.
Em 2024, assumiu a presidência da Comissão de Educação, considerado uma derrota do governo, mas não conseguiu emplacar pautas conservadoras como homeschooling e Escola Sem Partido. Em 2025, foi responsável pelo recuo do Governo Federal em portaria sobre fiscalização da Receita Federal, após publicar vídeo insinuando taxação do Pix.
Guilherme Boulos: o deputado 'ministro'
Guilherme Boulos pouco circulou pela Câmara durante seu mandato e teve atuação considerada apagada no parlamento. Foi líder da Federação PSOL/Rede em 2023 e titular de três comissões, relatando cinco projetos que viraram leis, incluindo um do governo sobre Programa de Aquisição de Alimentos.
Ficou marcado pelo relatório favorável à absolvição do deputado André Janones no Conselho de Ética, defendendo que o caso não deveria prosseguir por tratar de "fatos ocorridos antes do início do mandato". Ganhou protagonismo nos debates sobre regulamentação de trabalhadores por aplicativos, mas o projeto decolou quando já havia se tornado ministro da Secretaria Geral da Presidência.
Carla Zambelli: problemas judiciais e fuga
A deputada Carla Zambelli ficou marcada pelos problemas na justiça e pouco exerceu efetivamente seu mandato. Foi condenada pelo STF por invadir o sistema do CNJ e por perseguir, armada, um eleitor na véspera das eleições de 2022 - episódio que o ex-presidente Jair Bolsonaro apontou como um dos motivos de sua derrota.
Abandonada pelos aliados na Câmara após a condenação, fugiu para os EUA e buscou asilo na Itália, onde acabou presa. A justiça italiana já concordou com sua extradição. Antes de renunciar ao mandato em dezembro de 2025, havia relatado apenas dois projetos na Casa, ocupando cargos em comissões da Mulher, Educação e Relações Exteriores.
Eduardo Bolsonaro: da prioridade partidária à perda do mandato
Eduardo Bolsonaro atuou como titular em quatro comissões da Câmara e chegou a presidir a Comissão de Relações Exteriores, considerado prioridade máxima pelo partido. Também atuou como líder da minoria e vice-líder da oposição.
Em fevereiro de 2025, mudou-se para os Estados Unidos em tentativa de articulação com o governo Trump para pressionar por anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Em abril do mesmo ano, anunciou licença do cargo para continuar no exterior.
A oposição tentou mantê-lo como líder da minoria para evitar contabilização de faltas, mas a nomeação foi barrada pelo presidente da Casa, Hugo Motta. Em 18 de dezembro de 2025, perdeu seu mandato por excesso de faltas através de ato da mesa. Apresentou 502 projetos, com apenas dois aprovados, nenhum como autor principal.
Ricardo Salles: CPI do MST e mudança partidária
Ricardo Salles foi eleito pelo PL, mas em agosto de 2024 anunciou mudança para o Novo após tentativa frustrada de concorrer à prefeitura de São Paulo pelo partido original. Seu mandato foi marcado por forte oposição ao governo Lula.
Teve participação de destaque como relator da CPI do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), marcada por intensos embates entre deputados de direita e esquerda. Em seu parecer, propôs indiciamento de 11 pessoas, incluindo ex-ministro e líderes do movimento.
Durante os quatro anos como deputado, apresentou 559 projetos, tendo sido aprovada apenas uma PEC sobre reserva de orçamento para catástrofes naturais, da qual não foi autor principal. Relatou 16 projetos e conseguiu aprovação de três, incluindo projeto que restringe direitos de ocupantes de terra.
O histórico desses cinco parlamentares revela um paradoxo entre votação expressiva e baixa produtividade legislativa, com trajetórias marcadas por polêmicas, problemas judiciais e, em dois casos, perda definitiva dos mandatos conquistados nas urnas.



