Jovem de Cajazeiras vence desafios e conquista 1º lugar em Medicina na USP
Morador de Cajazeiras é 1º lugar em Medicina na USP

Jovem de Cajazeiras supera adversidades e conquista primeiro lugar em Medicina na USP

A rotina de Wesley de Jesus, morador do bairro de Cajazeiras, em Salvador, era marcada por desafios típicos de regiões periféricas, incluindo ladeiras íngremes e longos deslocamentos. Aos 17 anos, após anos de preparação cercada por obstáculos sociais e estruturais, ele alcançou o primeiro lugar no vestibular de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). “Você já começa nessa maratona lá atrás. Você começa bem recuado — fora muitos empecilhos que vão surgindo no caminho”, afirmou Wesley ao recordar o trajeto diário até a escola.

Contexto social e educacional de Cajazeiras

Wesley estudou no Colégio Estadual Ana Bernardes, também localizado em Cajazeiras, um bairro onde os indicadores sociais ficam abaixo da média nacional em renda e saneamento, enquanto a taxa de analfabetismo é maior que a média do país. Na escola, ele precisou reforçar conteúdos básicos para acompanhar o ritmo acadêmico. “Ele chega aqui no sexto ano e precisa de algumas construções de conhecimento. Ele participa dos programas de Mais Educação, onde faz reforço de matemática e português”, explicou o diretor Manoel Menezes, que acompanhou o estudante ao longo dos anos.

Apoio fundamental da professora de redação

Uma das principais referências de Wesley no colégio foi a professora de Redação, Cátia Valentina Góis. Mesmo com 19 turmas e mais de 30 alunos em cada uma, ela mantinha atividades extras e atendimentos fora de sala para apoiar estudantes dedicados. “Ele sempre parecia um mini-adulto. Às vezes eu falava: ‘Esse menino entrou na máquina do tempo, veio do século XIX para cá’”, disse a professora. “Ele falava comigo de uma forma que, às vezes, eu tinha a impressão de que Machado de Assis tinha entrado nele.” Wesley buscava constantemente orientação, pedindo temas para escrever e revisões de seus estudos.

Adaptações e sacrifícios no ambiente doméstico

O jovem divide a casa com a mãe e três irmãos, e o quarto que usava como sala de estudos inicialmente não tinha mesa nem computador. Com ajuda, conseguiu adquirir os equipamentos, mas para economizar energia, usava apenas uma luminária. No ambiente, colava nas paredes fórmulas, informações e cronogramas de revisão. “Eu colava aí as fórmulas, algumas informações que eram necessárias, cronograma, assuntos que eu tinha que revisar”, explicou. A mãe, Liliana Maria de Jesus, acompanhou a trajetória desde a infância, marcada por crises de asma e internações no SUS, experiências que despertaram o desejo do filho pela carreira médica.

“Via ele dormindo em cima da mesa. O dia amanhecendo, ele dormindo. Eu levantava o rosto dele, todo amassado, o olho vermelho. ‘Meu Deus, menino, vá dormir!’”, relatou Liliana. Quando a casa esquentava, Wesley ia para a cozinha; quando chovia, as goteiras molhavam os livros doados. A solução foi estudar o dia inteiro na biblioteca da escola. “Ele ficava sentado aqui, estudando, quebrando a cabeça. Eu sempre digo que ele comia livros”, contou o diretor.

Persistência e conquista da aprovação

Wesley tentou a USP três vezes antes de ser aprovado. Mesmo sem sucesso inicial, insistiu, incentivado pela mãe. “Continue que você vai vencer. Não pare. Uma hora tem que dar certo”, disse Liliana ao filho. A cena da aprovação reuniu a família, que comemorou assim que o resultado foi divulgado. Wesley afirmou que, mais importante do que a primeira colocação, foi ser o primeiro da família a chegar ao Ensino Superior. “Eu cheguei até aqui hoje graças ao apoio de muitas mãos. Todo esse feito não passou só pelas minhas mãos”, declarou. Amigos organizaram uma vaquinha online para ajudar nas despesas de moradia, alimentação e material acadêmico em São Paulo.

Representatividade e planos futuros no SUS

Agora calouro da USP, Wesley já realizou uma palestra para alunos do terceiro ano na escola onde estudou, inspirando outros jovens. Para a professora Cátia, o desempenho do estudante simboliza conquistas coletivas. “A vitória de todo aluno meu é a minha vitória. É a vitória da escola pública, é a vitória dos professores da escola pública”, afirmou. Wesley diz que pretende atuar como médico comunitário e também no SUS, com foco em retornar benefícios à região onde cresceu. “Para Cajazeiras, para que, de alguma forma, eu possa contribuir com o crescimento de quem mora aqui e, principalmente, quem é da periferia.” Liliana planeja seguir ao lado do filho nessa nova etapa, celebrando as conquistas com afeto e apoio contínuo.