Aos 65 anos, baiana realiza sonho de entrar na universidade após incentivo da filha
Aos 65 anos, baiana entra na universidade após incentivo da filha

Após mais de quatro décadas longe da sala de aula, a baiana Josélia Santos da Silva decidiu recomeçar e não parou mais. Aos 65 anos, ela celebra a concretização de um sonho: ingressar na universidade. 'Sessenta e cinco anos não são 65 dias, né?! Eu já vivi. Vivi no sentido de estar viva. Agora eu quero viver como pessoa, como integrante da sociedade', ressalta, em entrevista ao g1. 'Viver o meu sonho e também realizar o desejo de minha filha, que ela tem o desejo de me ver com o nível superior, igual eu a vi quando ela recebeu o diploma dela'.

O retorno aos estudos

Moradora de Fazenda Grande 4, em Salvador, Josélia voltou a estudar por incentivo — e insistência — da filha, a professora Jovelina Santos da Silva Uzêda, de 40 anos. Concluiu o Ensino Médio pela Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Colégio Estadual Luiz José de Oliveira, em 2025, e conquistou uma vaga no curso de Bacharelado Interdisciplinar (BI) em Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), neste ano.

A agora universitária havia interrompido os estudos na sétima série do Ensino Fundamental, em 1979. 'Casei aos 18 anos e meu marido não deixou que eu continuasse estudando', relembra. A partir dali, foram décadas dedicadas à família, ao trabalho de costura e à criação dos filhos. Porém, a leitura e a vontade de aprender nunca foram embora. 'Eu nunca deixei de ler, alfabetizei meus filhos em casa, coloquei-os na escola já sabendo ler, escrever, tudo direitinho. E com a evolução deles, eu fui seguindo', conta.

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O papel da família

O retorno à escola só aconteceu cerca de 40 anos depois, em 2023. À época, Josélia já era viúva e teve influência direta da família. Mais do que uma história de superação individual, a trajetória evidencia a força do vínculo entre mãe e filha. Foi Jovelina quem incentivou a retomada dos estudos, invertendo os papéis e mostrando como o apoio familiar pode transformar vidas. 'Eu protelei e ela foi me convencendo. Minha filha insistiu muito para que eu voltasse a estudar, logo depois que fiquei viúva. Eu segurei um pouquinho, fiquei aguardando um pouco, mas em 2023 resolvi voltar', lembra.

O incentivo não parou por aí. Os netos também acompanharam de perto o processo e ajudaram a manter o sonho vivo rumo ao Ensino Superior. 'Minha filha insistiu bastante, porque ela sempre quis me ver concluir o Ensino Médio. Quando eu concluí, ela ainda não se deu por vencida. Aí ela e meu neto ficaram insistindo: "Vamos fazer o Enem juntos"'. Foi o pontapé que faltava.

A conquista da vaga

Jovelina acompanhou de perto e auxiliou todo o processo de inscrição da mãe no Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Depois, vibrou muito com a aprovação no vestibular. Josélia, no entanto, avalia que demorou para assimilar a conquista. 'Minha filha estava toda eufórica, mas eu não fiz muita festa. Demorei a acreditar. Precisei da minha família para "cair a ficha" de que eu estava na universidade'.

Agora, aos 65 anos, ela encara novos desafios no ambiente acadêmico e uma rotina intensa de estudos — o campus do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas (Cecult) fica em Santo Amaro, cidade no Recôncavo baiano a 73 km de Salvador. Assim, desde que as aulas começaram, Josélia se divide: de segunda a sexta, fica no interior, e em alguns fins de semana retorna para a capital. Mesmo com as mudanças e dificuldades, ela segue determinada a realizar o sonho antigo e dar orgulho à filha e aos netos.

Mensagem de esperança

Neste Dia das Mães, a história ganha um significado ainda mais especial: uma mãe que sempre incentivou os filhos agora é incentivada por eles. Para Josélia, a mensagem é clara: nunca é tarde para recomeçar. 'Os sonhos podem até ficar adormecidos, mas não morrem. Não existe idade para realizá-los. O que você aprende ninguém tira de você'. 'Agora quero viver como pessoa', diz Josélia, estudante de 65 anos da UFRB.

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