Universitária carioca cria jogo inovador para combater racismo através da representatividade
Uma universitária do Rio de Janeiro desenvolveu um jogo de cartas educativo que tem como objetivo principal discutir o racismo estrutural e ampliar o acesso à cultura através da representatividade de pessoas negras. Criado por Thais Dias Xavier, participante do projeto Jovens Cientistas Cariocas, o jogo foi desenvolvido na Nave do Conhecimento, localizada em Madureira, na Zona Norte da capital fluminense.
Origem da ideia e motivação pessoal
Segundo Thais, a ideia surgiu a partir de um incômodo profundo sobre o distanciamento que parte significativa da população brasileira mantém em relação aos espaços culturais. "Eu já tinha um incomodo que era de as pessoas terem medo de chegar nesses locais de cultura, seja por questões geográficas, por falta de conhecimento ou por limitações de acesso", explicou a criadora.
A universitária destacou que teve a sorte de contar com professores que ajudaram a desmistificar esses espaços, mas percebeu a necessidade de criar metodologias mais acessíveis. "Eu percebi que a gente precisava criar formas, pesquisas, metodologias e essa conversa para que as pessoas pudessem se sentir parte", afirmou Thais, revelando que sua própria trajetória acadêmica influenciou o projeto.
Mecânica e funcionamento do jogo
O jogo é baseado em um sistema de cartas que apresentam personagens negros reais e reconhecidos em diversas áreas de atuação, funcionando como "heróis" dentro da dinâmica proposta. Cada carta traz:
- Uma história resumida do personagem
- Uma pontuação específica
- Contexto sobre suas contribuições
Paralelamente, existem cartas de "vilões" que representam situações e práticas racistas concretas. Um exemplo é a carta que descreve "Opressão estética", retratando situações em que pessoas negras são pressionadas a esconder características físicas como tipo de cabelo ou traços faciais.
A lógica do jogo é essencialmente coletiva: os participantes precisam escolher, entre suas cartas de personagens, quais deles podem enfrentar e combater cada tipo específico de situação racista apresentada.
Personagens que inspiram e educam
Entre as figuras presentes nas cartas estão diversas personalidades negras que se tornaram referências em suas áreas:
- Andrea Hygino - professora de artes da UERJ
- Renê Silva - jornalista do Voz das Comunidades
- Leila Gonzales - professora da UERJ que já usava cabelo black power quando ainda era tabu
- Bia Souza - judoca campeã e medalhista olímpica
"A pesquisa em um primeiro momento vai debater com a comunidade acadêmica sobre como a gente está lidando, mas a parte principal é quando chega o jogo, que é essa metodologia, de olhar para as pessoas pretas e terem elas como referência", explicou Thais sobre a importância da representatividade.
Adaptabilidade e aplicação prática
Uma das características mais marcantes do jogo é sua flexibilidade e adaptabilidade a diferentes contextos. O projeto pode ser facilmente aplicado em:
- Escolas de ensino fundamental e médio
- Projetos sociais comunitários
- Espaços culturais diversos
- Grupos de diferentes tamanhos
"Essa é a parte interessante do jogo que a gente pode adaptar para cada local, quantidade de pessoas. Então podemos jogar em duas pessoas ou em dez pessoas, que é essa a ideia que tenha bastante pessoas para a gente conversar", detalhou a criadora.
Trajetória pessoal como inspiração
Thais revelou que sua própria história de vida influenciou profundamente o desenvolvimento do jogo. A universitária destacou a importância das referências próximas para ampliar horizontes e quebrar barreiras sociais. "Eu acho importante quando a gente já tem uma pessoa que já é próxima ou que a gente conhece, que acompanha nas redes sociais. Aí aquilo fica um pouco mais simples", refletiu.
A pesquisadora também compartilhou memórias de sua infância e adolescência: "Meu primeiro projeto social eu tinha 10 anos e é quando eu vejo a minha irmã, que é cinco anos mais velha do que eu, descobrindo ali que ela poderia fazer faculdade, que não era tão difícil quanto contavam pra gente. Então eu mais nova tenho essa influência: 'Ah então eu também posso'".
Cultura como instrumento de transformação social
Para Thais, o jogo representa muito mais do que uma simples atividade lúdica - é uma ferramenta genuína de transformação social. A universitária, que inicialmente cursou Direito mas migrou para História da Arte, defende que o acesso à cultura pode ajudar a romper barreiras sociais profundas e ampliar oportunidades.
"A arte pode libertar a gente. Quando a gente conhece a nossa cultura, a nossa história, o que aconteceu, porque tem aquele nome, isso tudo dá força, o empoderamento e a gente perde o medo de abrir portas e chegar em locais", afirmou com convicção.
A criadora do jogo finalizou destacando que esse tipo de iniciativa ajuda até mesmo a perder "o medo de fazer perguntas, que é muito importante" para o processo de aprendizado e empoderamento coletivo.



