Vinho brasileiro ambiciona nota 100 de Robert Parker com investimento milionário
Vinho brasileiro busca nota 100 de Robert Parker

Há uma nova brisa soprando na Campanha Gaúcha, e ela vem com sotaque bordalês. A chegada do enólogo Pascal Marty ao sul do Brasil, por meio do empresário Luis Eduardo Batalha, não é apenas mais um capítulo do entusiasmo recente pelo vinho nacional. É, no mínimo, uma declaração de ambição. Qual é a exata dimensão desse sonho? Produzir o primeiro brasileiro nota 100 de Robert Parker, o mais influente crítico de vinhos da história.

Campanha Gaúcha: terreno fértil para grandes vinhos

Espremida quase na fronteira com o Uruguai, a Campanha Gaúcha já vinha ensaiando seus passos mais firmes. Não à toa, dali saiu o Tannat da Guatambu que cravou a maior pontuação brasileira no Descorchados 2026 — um feito que funciona como prólogo dessa história. Mas agora o roteiro ganha um protagonista acostumado a mudar destinos.

Pascal Marty: o enólogo que transforma regiões

Marty não é exatamente do tipo que aceita convites protocolares. No currículo, carrega dois projetos que redesenharam mapas inteiros: o Opus One, que colocou a Califórnia na mesa dos grandes, e o Almaviva, responsável por elevar o Chile a outro patamar nos anos 1990. Ambos sob a égide da mítica Baron Philippe de Rothschild — Marty também passou pelo lendário Château Mouton Rothschild durante 20 anos ou 16 safras. Não é pouca coisa.

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Em um evento realizado recentemente em São Paulo, quando perguntado sobre acreditar ou não na promessa da Campanha Gaúcha de chegar à consagração máxima de Robert Parker, Marty foi direto, como convém aos que já viram muita coisa dar certo (e errado): “Se não acreditasse nisso, não estaria aqui”.

Luis Eduardo Batalha: o visionário por trás do projeto

Do outro lado da mesa está Luís Eduardo Batalha, um empresário que parece operar sempre alguns movimentos à frente. Foi pioneiro ao trazer a raça de gado angus ao Brasil, ajudou a desembarcar o Burger King por aqui e investiu cedo em hospitalidade rural. O primeiro resort brasileiro, a Estância Barra Bonita, foi criado por ele. Há cerca de dois anos, ele comprou duas vinícolas, a Cerro de Pedra e a Batalha, com vinhedos de quase 20 anos, já planejando o grande salto para a nota 100 de Robert Parker. “Para isso eu precisava do melhor do mundo”, diz o empresário, referindo-se à contratação de Pascal Marty.

Grand Terroir 31: números e ambição

Produzir o primeiro brasileiro a receber pontuação máxima é a cereja de bolo de um projeto monumental na Campanha Gaúcha. Batizada de Grand Terroir 31, a iniciativa tem números que falam alto: 380 milhões de reais em investimento, 49 parcelas de um hectare cada, vinhedos, oliveiras adultas, hotelaria de luxo e um conceito que mistura Bordeaux com mercado imobiliário. Cada proprietário poderá ter seu próprio vinho, com sua própria etiqueta — uma espécie de ego engarrafado, com assessoria técnica de ponta, por R$ 2,5 milhões.

Megalomania? Pois já há compradores de Salvador e dinheiro de expatriados via Miami desembarcando no projeto. A inspiração para o empreendimento veio do premiado The Vines Resort e Spa, em Mendoza, na Argentina. Mas não se engane: há uma linha divisória bem clara entre o lúdico e o icônico. Os vinhos com a assinatura de Marty, que devem ter a primeira safra em 2027, não devem entrar na categoria “democráticos”. “Alguns vinhos brasileiros não têm justificativa para custar caro. Os nossos terão”, explica o executivo do grupo, Marcio Bonilha, sem rodeios.

O enólogo e o empresário: uma parceria de peso

Curiosamente, o próprio Batalha não é exatamente um bebedor de vinho. Um trauma etílico infantil com ponche o afastou do consumo, mas não da convicção. Hoje, diz confiar no próprio olfato — e nas referências. Quando um vinho o remete ao Almaviva ou a Nicolás Catena, ele entende que está no caminho certo. É uma espécie de curadoria sensorial pouco ortodoxa, mas, convenhamos, coerente com a ousadia do projeto.

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Marty, por sua vez, já disse que vê em Batalha algo de Philippe de Rothschild: visão de longo prazo — aquela matéria-prima invisível que não se planta, mas define tudo. Com alma bordalesa assumida, o enólogo deve apostar em cortes — vinhos de assemblage, onde o terroir se expressa em camadas e não em varietais solitários. É um caminho sofisticado e arriscado, especialmente em uma região que ainda constrói sua identidade. Mas talvez seja justamente isso que esteja em jogo: não apenas fazer bons vinhos, mas mudar a narrativa. Transformar a Campanha Gaúcha de promessa em destino. De nota alta em ranking em lugar-comum na conversa global.

Enoturismo e desafios logísticos

Há ainda a pretensão de revolucionar o enoturismo nacional, criando um resort para os apreciadores da bebida e dos luxos da hotelaria de alto padrão. A pergunta óbvia: será que os atrativos serão suficientes para visitantes de outras partes do país e até do mundo colocarem a Campanha Gaúcha no seu roteiro? O aeroporto mais próximo do local do empreendimento (Candiota, cidade a 20 quilômetros de Bagé) é o de Porto Alegre, a uma distância de cinco horas de carro. Batalha promete que a viagem será bem mais curta: “O governador do Rio Grande do Sul já me prometeu que haverá voo direto de Porto Alegre para Bagé, três vezes por semana”.

Se vai dar certo? Como todo grande vinho, ainda está em fase de maturação. Mas uma coisa já é clara: quando um homem que ajudou a criar ícones decide recomeçar do zero, o mundo do vinho — inclusive o brasileiro — deve prestar atenção.