Mulheres assumem liderança histórica na justiça, educação e defesa de direitos no ES
Mulheres lideram justiça, educação e direitos no ES pela primeira vez

Mulheres conquistam espaços de poder inéditos no Espírito Santo

Pela primeira vez na história do estado, mulheres assumem posições de liderança em instituições fundamentais do Espírito Santo, marcando um momento histórico na representatividade feminina. Justiça, educação, advocacia e políticas de enfrentamento à violência contra a mulher agora contam com lideranças femininas em cargos que, durante décadas, foram ocupados exclusivamente por homens.

Presença feminina transforma instituições capixabas

Neste contexto de mudanças, destacam-se cinco mulheres que quebraram barreiras e abriram caminhos. A desembargadora Janete Varga Simões se tornou a primeira presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo em 134 anos de história da corte. Natural de Barra de São Francisco, ela acumula 35 anos de carreira na magistratura e afirma que a liderança surgiu naturalmente de seu compromisso institucional.

"A presença feminina em espaços de decisão transforma a cultura institucional, amplia perspectivas e serve de inspiração para que outras mulheres não desistam de seus projetos", destacou a desembargadora.

Educação e advocacia também têm pioneiras

No campo educacional, a professora Adriana Piontkovsky Barcellos fez história ao se tornar a primeira mulher eleita reitora do Instituto Federal do Espírito Santo. Com 37 anos de atuação na educação, ela enfatiza o significado coletivo de sua conquista: "Sei que a minha eleição é simbólica para muitas mulheres que, ao verem uma mulher nesse lugar, passam a vislumbrar a possibilidade de um dia também chegarem a cargos de gestão".

Na advocacia, Erica Ferreira Neves, de 51 anos, se tornou a primeira mulher eleita presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Espírito Santo, vencendo as eleições de 2024 com 53% dos votos válidos. Para ela, exercer esse poder significa mudar a imagem da advocacia feminina capixaba e inspirar outras colegas.

Enfrentamento à violência e referência nacional

Na segurança pública, a delegada Cláudia Dematté está à frente da Divisão Especializada de Atendimento à Mulher da Polícia Civil desde 2018. Com mais de 19 anos de carreira, ela destaca a importância da presença feminina em cargos de liderança para uma gestão com respeito, equidade e humanização.

Completando esse grupo de pioneiras, a advogada capixaba Fayda Belo, de 44 anos, se tornou referência nacional em debates sobre crimes de gênero, feminicídio e direito antidiscriminatório. Natural de Cachoeiro de Itapemirim, ela ressalta os desafios adicionais enfrentados por mulheres negras: "Além de mulher, sou uma mulher negra e enfrento diariamente também o racismo".

Desafios persistentes na representação política

Apesar desses avanços significativos, os dados revelam que a presença feminina em espaços de poder ainda está distante de refletir a realidade da população. Mulheres são maioria no Brasil, mas continuam sub-representadas em cargos de decisão, especialmente na política.

Nas eleições municipais de 2024 no Espírito Santo, apenas 19 mulheres se candidataram às prefeituras, representando apenas 6,79% das candidaturas, contra 261 homens. Ao final do processo eleitoral, apenas duas mulheres foram eleitas prefeitas, representando 2,63% dos 78 municípios capixabas.

A participação feminina foi um pouco maior nas candidaturas a vice-prefeitura, com 63 mulheres disputando o cargo (22,03% das candidaturas), mas apenas sete foram eleitas, representando 9,21% dos eleitos.

Mensagens de inspiração e fortalecimento coletivo

Mais do que trajetórias individuais, as histórias dessas líderes carregam um sentido coletivo. Todas destacam a importância das mulheres que vieram antes - mães, avós, professoras - e deixam mensagens inspiradoras para as novas gerações.

A delegada Cláudia Dematté enfatiza: "Nunca desistam dos seus sonhos e nunca duvidem da própria capacidade. O espaço de poder também pertence às mulheres". Já a desembargadora Janete Varga Simões aconselha: "Que se preparem, estudem e confiem em si mesmas. Quanto mais mulheres nesses espaços, mais justa e igualitária será a sociedade".

Erica Neves, presidente da OAB-ES, reforça a importância do apoio mútuo: "Acreditem em si mesmas e sejam rede de apoio a outras mulheres. Mulheres sustentam mulheres". Fayda Belo completa: "Nunca deixem que digam até onde podem chegar. O nosso lugar é onde a gente quiser e se preparar para estar".

Um encontro simbólico que permanece como aspiração

Durante o planejamento desta reportagem, houve a tentativa de reunir as cinco mulheres para um registro histórico em um cenário simbólico do Espírito Santo. No entanto, conciliar as agendas se mostrou impossível devido aos múltiplos compromissos profissionais e institucionais das líderes.

Entre viagens a trabalho para Fortaleza, São Paulo e Rio de Janeiro, audiências judiciais, investigações policiais, eventos acadêmicos e reuniões administrativas, as agendas se cruzavam sem encontrar uma data comum. Mesmo assim, todas aceitaram compartilhar suas trajetórias, desafios e reflexões sobre o significado de ocupar posições de liderança.

Este momento histórico no Espírito Santo representa não apenas conquistas individuais, mas um avanço coletivo na luta por maior representatividade feminina nos espaços de decisão, servindo de inspiração para futuras gerações de mulheres capixabas.