Mãe brasileira enfrenta nova batalha legal no Egito após conquistar guarda do filho
Karin Rachel Aranha Toledo, mãe brasileira que vive no Egito desde que o marido levou seu filho Adam para o país sem autorização em 2022, enfrenta mais um obstáculo em sua jornada para reencontrar a criança. Após conquistar a guarda legal do menino no Tribunal de Apelações do Cairo em novembro de 2025, a defesa de Karin informou que foram realizadas duas tentativas de busca pelo filho nos dias 7 e 23 de fevereiro, ambas sem sucesso.
Queixa penal contra pai e avó paterna
Segundo os advogados de Karin, foi apresentada queixa na Justiça egípcia contra o pai, Ahmed Tarek Mohamed Faiz Abedelkalec, e a avó paterna pela recusa em entregar o garoto à pessoa legalmente autorizada a mantê-lo sob guarda. A acusação trata de contravenção penal conforme a legislação local.
"Eu nunca senti na minha vida que eu estava tão perto do meu filho. E eu sei que uma hora ou outra essa briga de gato e rato vai acabar", afirmou Karin em entrevista, demonstrando mistura de esperança e frustração após anos de luta judicial.
Histórico do caso e busca frustrada
A família morava em Valinhos, interior de São Paulo, até setembro de 2022, quando Karin retornou de uma viagem à Europa e encontrou a casa vazia. O marido havia viajado para o Egito com Adam, então com 4 anos, sem aviso prévio e sem autorização materna.
No Brasil, o caso foi investigado pela Polícia Federal e, em 2023, a Justiça Federal de Campinas determinou a prisão preventiva de Ahmed. Karin então abriu processo no Egito, para onde se mudou, culminando na conquista da guarda em 2025.
Durante as buscas recentes, o oficial de Justiça precisou acionar um marceneiro para arrombar as portas dos imóveis onde se acreditava que Adam poderia estar. "Nunca vi uma casa tão escura, tão fechada, tão nojenta assim, sabe? Horrível ver que o meu filho tá ali naquele canto que não tem nem quarto", relatou Karin sobre a experiência angustiante.
Decisão judicial histórica no Cairo
A sentença do Tribunal de Apelações do Cairo reverteu decisão anterior que havia transferido a guarda para a avó paterna sob alegação de que Karin seria "inapta para cuidar do filho". Os juízes egípcios consideraram que as acusações eram baseadas em "boatos" e não tinham fundamento.
O tribunal ainda reconheceu que Karin se converteu ao Islã em julho de 2024, desmontando a alegação de risco à formação religiosa da criança. A decisão determinou que Adam deve ficar sob guarda materna e condenou os réus ao pagamento das custas processuais.
Desafios da Convenção de Haia
O caso ilustra as dificuldades de repatriar crianças quando há conflito entre países com diferentes sistemas jurídicos. O Brasil é signatário da Convenção de Haia sobre sequestro internacional de crianças, mas o Egito não aderiu ao tratado.
Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, não há Autoridade Central designada para o tema no Egito, o que complica a resolução desses casos. O governo brasileiro informou que seus esforços concentram-se na tramitação diplomática dos pedidos para o país africano.
O Ministério das Relações Exteriores acompanha o caso através da Embaixada do Brasil no Cairo, mantendo contato com autoridades locais e prestando assistência consular à criança e à família.
Esperança persistente
Apesar das buscas frustradas, Karin mantém a esperança de reencontrar o filho. "São quase quatro anos de busca, a criança já mudou, né?", reflete sobre o tempo perdido. "Eu juro pra você, eu tô tentando de todos os jeitos, a embaixada pressionando. Mais cedo ou mais tarde vai encontrar".
A defesa afirmou que é improvável que o pai tenha deixado o Egito com a criança, pois há proibição de viagem em vigor que só permitiria a saída com consentimento conjunto dos pais ou ordem judicial expressa.
A situação permanece tensa enquanto Karin aguarda o cumprimento da sentença que lhe garante a guarda legal de Adam, criança que não vê há três anos e cujo rosto adulto ela sequer conhece após tanto tempo separada.



