Ex-comandante venezuelano acusado de tortura vive reviravolta nos Estados Unidos
Rafael Quero Silva, ex-comandante da Guarda Nacional Bolivariana em Barquisimeto, na região centro-oeste da Venezuela, enfrenta uma situação inesperada em território americano. O militar, que foi encarregado da repressão aos protestos contra o governo nos anos de 2013 e 2014, foi recentemente detido pelas autoridades migratórias dos Estados Unidos após ser descoberto atuando como figurante em telenovelas em Miami.
Da incredulidade à esperança de justiça
María Elena Uzcátegui, uma das vítimas de Quero Silva, experimentou uma sucessão de sentimentos intensos ao descobrir que seu suposto torturador vivia livremente nos Estados Unidos e inclusive participava de produções televisivas. "Como é possível que alguém que foi torturador, que mandou matar e fez sofrer tantas pessoas, viva agora livremente nos EUA, feliz da vida?", questionou Uzcátegui em entrevista à BBC News Mundo.
A presença do ex-militar em Miami foi detectada inicialmente em 2018, quando membros da diáspora venezuelana o reconheceram interpretando um policial na telenovela Mi Familia Perfecta, da rede Telemundo. Na época, Uzcátegui residia na Colômbia e recebeu a notícia através de agentes do FBI que a contataram como parte de uma investigação sobre Quero Silva.
Detenção e processo migratório
No final de fevereiro de 2025, agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) prenderam Quero Silva em Miami, classificando-o como "estrangeiro ilegal e criminoso da Venezuela". As autoridades descobriram que o ex-militar havia entrado nos EUA em 2016 e permanecido no país além do período permitido pelo seu visto.
Após a detenção, Quero Silva foi submetido a um processo migratório que culminou em novembro passado, quando um juiz determinou que ele "havia participado de violações aos direitos humanos na Venezuela" e ordenou sua saída do país. Atualmente, ele está detido no centro para migrantes Krome, em Miami, enquanto recorre da decisão para evitar a deportação.
Ação civil histórica contra violações de direitos humanos
Paradoxalmente, Uzcátegui e outras vítimas não desejam a deportação de Quero Silva, mas sim que ele responda a uma ação civil apresentada perante a Justiça americana. A ação legal se baseia na Lei de Proteção às Vítimas de Tortura dos EUA e acusa o ex-militar de ter ordenado, autorizado e supervisionado a tortura de manifestantes durante os protestos de 2013 e 2014.
Andrés Colmenarez, um dos cinco autores da ação, destaca a singularidade do processo: "É o primeiro caso em que um militar venezuelano é levado à Justiça pelas próprias vítimas". A advogada Almudena Bernabéu, do Centro Guernica 37, organização que oferece apoio jurídico, explica que esta é a primeira ação legal contra membros das forças de segurança venezuelanas em tribunais nacionais.
Relatos detalhados de tortura e repressão
Os autores da ação descrevem ter sofrido graves violações durante sua detenção:
- Torturas físicas e psicológicas
- Maus tratos e humilhações constantes
- Privação de água, alimentos e sono
- Falta de acesso a serviços sanitários básicos
- Impedimento de contato com familiares
- Ferimentos por disparos em dois dos detidos
O documento apresentado no distrito sul da Flórida afirma que Quero Silva não apenas ordenou e autorizou, mas também participou diretamente da violenta repressão aos protestos, trabalhando lado a lado com a unidade da Guarda Nacional Bolivariana sob sua autoridade.
O caso específico de María Elena Uzcátegui
Uzcátegui relata que, em setembro de 2014, um grande destacamento da Guarda Nacional Bolivariana, liderado pessoalmente por Quero Silva, invadiu seu complexo residencial em Barquisimeto. "Eles fizeram um destacamento como se fossem deter Carlos, o Chacal", comenta ela sobre a operação desproporcional.
Durante a invasão, Quero Silva a chamou de "rainha das barricadas" e declarou: "Procurei você por tanto tempo e, por fim, encontrei. Vou embora feliz porque levo meu troféu." Após a detenção, Uzcátegui foi transferida para o Destacamento 47, onde testemunhou Quero Silva dando instruções sobre o tratamento dos detidos.
Ela descreve ter sido submetida à "tortura da luz branca", técnica que envolve exposição contínua a luz intensa sem permissão para fechar os olhos. Posteriormente, foi enviada para a prisão de segurança máxima de Uribana, onde enfrentou condições terríveis por aproximadamente três meses, desenvolvendo problemas de saúde e perdendo cerca de 13 quilos.
Busca por justiça, não vingança
Após sua libertação por motivos de saúde em dezembro de 2014, Uzcátegui ficou em prisão domiciliar até 2017, quando fugiu para a Colômbia. Cinco anos depois, migrou para os Estados Unidos, onde agora busca justiça através do processo civil contra Quero Silva.
"Queremos justiça para todas essas famílias que perderam tudo, que perderam seus filhos", afirma Uzcátegui. "Entendo que ele é uma só pessoa e que há muitíssimas outras na Venezuela e muitos nos EUA que merecem enfrentar o que ele está passando."
Ela enfatiza que o objetivo não é vingança, mas sim estabelecer um precedente legal importante: "Que seja justiça para muitos, embora seja para uma delas, por todos aqueles que não conseguiram e por todos os que estão mortos".
O caso representa um marco significativo na busca por responsabilização por violações de direitos humanos cometidas durante os protestos na Venezuela, oferecendo um caminho legal inédito para vítimas que buscam justiça além das fronteiras de seu país de origem.
