Homem é denunciado após dizer que colega tem 'cheiro de preto' em Santos
Murilo Luiz Santos, de 29 anos, afirma ter sido vítima de racismo duas vezes no mesmo dia, na Baixada Santista, no litoral de São Paulo. Ele relatou ao g1 que um colega disse que ele tinha “cheiro de preto” enquanto desabafava sobre uma cliente que se recusou a ser atendida por ele no restaurante onde trabalha, em Santos. O caso ocorreu no último dia 24 de fevereiro.
Incidente no restaurante
O episódio começou no estabelecimento onde Murilo atua como gerente. Segundo ele, uma cliente expressou o desejo de ser atendida por outro funcionário, que considerou “mais bonito”. “Ela pegou o dedo e passou no [próprio] braço. Ali, já se demonstrou ser um caso bem escancarado de racismo”, declarou Murilo. Ele optou por não registrar denúncia contra a cliente, por receio de se comprometer com o restaurante, onde trabalha há mais de dez anos e nunca havia enfrentado situação semelhante.
Encontro na praia e comentários racistas
Após o expediente, Murilo decidiu encontrar amigos na praia do bairro Itararé, em São Vicente, para desabafar sobre o ocorrido. “Comecei meio que desabafar, contar um pouquinho como que tinha sido meu dia, falando que nunca tinha passado por uma situação dessa, e que muita gente ainda acha que o racismo acabou. Nisso, ele [um dos colegas] começa a dar a opinião dele. O racismo em forma de opinião”, explicou. Percebendo uma atitude similar à da cliente, Murilo começou a gravar o colega, identificado como Victor Fortes.
No vídeo, Fortes cheira o pescoço de Murilo e, sem se incomodar com a gravação, afirma reconhecer “cheiro de preto”, descrevendo-o como o “cheiro da melanina forte”. Ele ainda compara com relações anteriores, dizendo que já namorou “um cara com cheiro muito branco”. Murilo reage com incredulidade, mas Fortes continua, sugerindo que pessoas negras precisariam “passar um creme a mais” para “disfarçar o cheiro forte”. Após ouvir as falas, Murilo foi embora, sentindo revolta, e publicou o vídeo nas redes sociais, onde ele viralizou rapidamente.
Repercussão e ameaças
No dia seguinte, Murilo acordou com dezenas de mensagens e ligações de Fortes. Em uma delas, Fortes escreveu: “Se tu fez na intenção de me cancelar, eu fico mais hypado [viralizado] kk porque o que eu tenho de amigos negros, e amo eles”. Posteriormente, Fortes publicou uma retratação nas redes sociais, reconhecendo o erro e afirmando que não tinha intenção de ofender ninguém. “Eu agradeço muito a quem me chamou com respeito e me deu oportunidade de aprender. Eu estou aberto a ouvir todos e melhorar”, disse ele.
No entanto, Fortes também publicou a mensagem: “Sua hora vai chegar”. Apesar de não citar nomes, Murilo tem certeza de que se tratava de uma ameaça direcionada a ele, o que o levou a registrar um boletim de ocorrência.
Ações judiciais em andamento
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou que o caso foi registrado como preconceito de raça ou de cor na delegacia eletrônica. A pasta não forneceu detalhes sobre as investigações, mas Murilo contratou um advogado para entrar com dois processos contra Fortes: um na esfera cível e outro na criminal. Essas ações visam buscar justiça e responsabilização pelos atos de racismo e pelas ameaças subsequentes.
O caso destaca a persistência do racismo no cotidiano brasileiro e a importância de denúncias e medidas legais para combater esse tipo de violência. A viralização do vídeo nas redes sociais também reforçou o debate público sobre preconceito e discriminação racial no país.
