Arlete Caramês, mãe de criança desaparecida e ativista, morre sem saber paradeiro do filho
Arlete Caramês, mãe de desaparecido e ativista, morre aos 82 anos

Mãe que transformou dor pessoal em causa pública morre sem respostas sobre filho desaparecido

Arlete Caramês faleceu nesta terça-feira, 24 de setembro, aos 82 anos de idade, sem nunca ter descoberto o paradeiro de seu filho Guilherme Caramês Tiburtius. O menino desapareceu em julho de 1991, quando tinha apenas 8 anos, enquanto brincava de bicicleta no bairro Jardim Social, em Curitiba. O caso permanece sem solução há mais de três décadas, marcando profundamente a vida da família e da comunidade.

Do luto ao ativismo: a criação do Movimento Nacional da Criança Desaparecida

Após o desaparecimento do filho, Arlete Caramês dedicou sua vida incansavelmente à busca por respostas e ao apoio a outras famílias em situação similar. Em 1992, fundou o Movimento Nacional da Criança Desaparecida do Paraná (CriDesPar), uma organização não governamental que se tornou referência nacional na prevenção e localização de crianças desaparecidas. Através da ONG, ela ajudou diversas famílias a reencontrarem seus filhos, transformando sua dor pessoal em uma causa coletiva de grande impacto social.

O ativismo de Arlete foi fundamental para a criação, em 1995, do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas do Paraná (Sicride). Segundo a Polícia Civil do estado, este serviço representa a primeira e única estrutura do Brasil dedicada exclusivamente ao desaparecimento de crianças e adolescentes, mantendo suas atividades até os dias atuais como um legado direto de seu trabalho.

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Contribuições legislativas e mudanças no Estatuto da Criança e Adolescente

O compromisso de Arlete Caramês com a proteção infantil resultou em mudanças significativas na legislação brasileira. Em 2005, sua atuação foi crucial para a aprovação de uma lei que alterou o Estatuto da Criança e Adolescente, garantindo que as buscas por crianças desaparecidas comecem imediatamente após a comunicação às autoridades, sem a necessidade de aguardar 24 horas.

A mesma legislação estabeleceu que os órgãos competentes devem notificar portos, aeroportos, Polícia Rodoviária e empresas de transporte interestaduais e internacionais sobre desaparecimentos, fornecendo todos os dados necessários para identificação. Estas medidas representaram avanços substanciais nos protocolos de busca e resgate em todo o país.

Trajetória política dedicada à infância e proteção das crianças

Arlete Caramês levou sua causa para a arena política, sendo eleita vereadora de Curitiba nos anos 2000 com 14.160 votos, a segunda maior votação daquele pleito. Durante seu mandato na Câmara Municipal, apresentou diversas propostas de lei focadas na proteção infantil, incluindo:

  • Sugestão de divulgação de pessoas desaparecidas no site da Prefeitura de Curitiba
  • Criação de ficha para identificação de crianças em hotéis
  • Exigência de carteira de identidade na matrícula escolar

Em 2002, foi eleita deputada estadual com 22.736 votos, assumindo uma cadeira na Assembleia Legislativa do Paraná. Nesta posição, manteve como prioridade absoluta a defesa dos direitos das crianças e o apoio às famílias afetadas por desaparecimentos, transformando sua experiência pessoal em ação pública permanente.

O desaparecimento de Guilherme: um mistério que persiste há décadas

Guilherme Caramês Tiburtius desapareceu durante um período em que o Paraná enfrentava uma onda de desaparecimentos infantis. No dia de seu sumiço, Arlete se despediu do filho pela manhã enquanto ele ainda dormia e foi trabalhar. Sob os cuidados da avó, Guilherme brincou de bicicleta pela rua, como era comum em sua rotina.

O menino chegou a ligar para a mãe pedindo autorização para usar dinheiro guardado para comprar um coelho, pedido que foi concedido. Por volta do meio-dia, a avó chamou Guilherme para almoçar e se preparar para a escola. O menino pediu para dar uma última volta de bicicleta, o que foi permitido. Cerca de trinta minutos depois, os familiares notaram seu desaparecimento e acionaram imediatamente a Polícia Militar.

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As buscas incluíram vasculhamento dos arredores e até mesmo de um rio próximo à residência, mas nenhuma pista foi encontrada. Guilherme e sua bicicleta nunca foram localizados, deixando um vazio que acompanhou Arlete Caramês até seus últimos dias.

O legado de Arlete Caramês transcende sua história pessoal, representando um marco na luta pelos direitos das crianças desaparecidas no Brasil. Sua dedicação transformou procedimentos policiais, influenciou legislações e ofereceu esperança a inúmeras famílias, mesmo que sua própria busca tenha permanecido sem resposta.