Aumento do diesel pressiona frete e pode elevar preços no Rio Grande do Sul
O impasse sobre a tabela do frete está gerando reflexos significativos no Rio Grande do Sul, com empresas de transporte de carga e logística estimando aumentos de até 10% no valor dos serviços. A projeção decorre diretamente da alta no preço do óleo diesel, que impacta profundamente os custos operacionais do setor.
Salto nos preços do combustível
O aumento do combustível já era sentido pelos motoristas gaúchos antes mesmo do último reajuste anunciado pela Petrobras. Entre o fim de fevereiro e meados de março, o preço médio do litro saltou de R$ 6,03 para R$ 6,80 nas bombas, uma variação expressiva de 13%.
"É um problema para a gente fazer a conta quando vai contratar um frete. Faz uma conta e quando vai abastecer o caminhão já é outro preço", relata o caminhoneiro Alexandre da Silva, exemplificando a instabilidade enfrentada pelos profissionais.
No último sábado, a Petrobras aumentou o preço do diesel vendido às distribuidoras para R$ 3,65, em um movimento para acompanhar a alta do petróleo no mercado internacional. Na mesma ocasião, o governo federal zerou as alíquotas do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) sobre o combustível.
Apesar de a estimativa da Petrobras ser de um aumento médio de R$ 0,06 por litro com o reajuste, alguns postos no Rio Grande do Sul registraram altas de cerca de R$ 0,80, ampliando a pressão sobre os transportadores.
Impacto 'inevitável' no frete
Considerando que cerca de 65% de toda a produção brasileira é escoada por rodovias, o setor de transportes se mostra extremamente sensível às variações do diesel. Para o presidente da Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no RS (Fetransul), Francisco Cardoso, o repasse no preço acontecerá inevitavelmente.
"Quando o diesel sobe nessa velocidade, o impacto nas operações é imediato e nenhum setor consegue absorver um aumento dessa magnitude por muito tempo. Então, a revisão dos contratos de frete, tarifas, torna-se inevitável", explica Cardoso com clareza.
Cristiano Canez, sócio-proprietário de uma transportadora, confirma que as negociações com os clientes já começaram. "A gente precisa respeitar alguns contratos, então vira uma negociação. Mas está tendo entendimento [...] não tem outra situação que não seja o repasse imediato", afirma o empresário.
Efeito em cascata na economia
O aumento no custo do transporte tende a ser repassado para o valor final dos produtos, gerando um "efeito cascata" que chega diretamente ao consumidor nas lojas e supermercados. Segundo o economista Silvio Arend, a consequência é a pressão sobre os índices de inflação.
"A empresa que depende do frete vai aumentar o seu custo, isso vai ser repassado para o produto", pontua o especialista com precisão.
Arend afirma que uma alta de 10% no preço dos combustíveis pode resultar em impacto de 0,5% na inflação. Ou seja, os produtos que chegam ao consumidor final podem ficar mais caros significativamente.
"Para a gente ter uma ideia, uma composição, em torno de 10% de aumento no preço dos combustíveis, gera, em termos de inflação, o índice final que a gente escuta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), em torno de 0,5%", conclui o economista com dados concretos.
Posicionamento das instituições
A Petrobras, em comunicado oficial, explica que o preço do diesel nas bombas é composto por diversos fatores, além do valor cobrado pela estatal. A empresa lista:
- Custos e margem de lucro de distribuidoras e revendedores
- Custo do etanol anidro, que é misturado à gasolina A para formar a gasolina C
- Impostos federais, como Cide, PIS/Pasep e Cofins
- Imposto estadual (ICMS), cuja alíquota varia conforme a unidade da federação
A Agência Nacional do Petróleo (ANP) afirma que segue monitorando continuamente o mercado regulado, inclusive com acompanhamento diário dos estoques de diesel. "Até o momento, a Agência não identifica restrições à manutenção das atividades ou à disponibilidade de combustíveis no mercado doméstico", informa a instituição.
Já o Sulpetro – entidade que representa os postos de combustíveis do RS – comunica que o abastecimento de diesel continua acontecendo de forma racionada das distribuidoras para os revendedores. "Conforme os empresários dos postos, a Petrobras está restringindo a quantidade de diesel solicitada pelas companhias", relata a organização, reforçando que não há desabastecimento, mas uma diminuição no volume de produtos repassados.
