Medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, popularmente conhecidos como "canetas" e amplamente utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, podem apresentar um efeito ambíguo em pacientes mais velhos. Um estudo apresentado na reunião anual da Academia Americana de Neurologia, em Chicago, sugere que, embora esses fármacos estejam associados a uma maior longevidade, também podem aumentar o risco de comprometimento cognitivo ao longo dos anos.
Detalhes do estudo
A pesquisa foi baseada em dados do banco internacional TriNetX, que reúne informações de cerca de 160 milhões de pacientes de mais de 100 instituições de saúde em diversos países. Os pesquisadores selecionaram adultos com 50 anos ou mais diagnosticados com diabetes tipo 2, sem histórico prévio de declínio cognitivo ou demência. No total, mais de 400 mil pacientes foram avaliados.
Para tornar a comparação mais justa, foi utilizada a técnica estatística de pareamento por escore de propensão, que coloca lado a lado pacientes com perfis semelhantes em termos de idade, peso, comorbidades, uso de medicamentos e resultados de exames. Assim, formaram-se dois grupos comparáveis, somando cerca de 65 mil pessoas: metade em uso das "canetas" e metade sem esse tratamento.
Embora o estudo não tenha acompanhado os pacientes em tempo real, foi possível reconstruir a evolução de cada um ao longo de até 10 anos com base nos registros médicos. Dessa forma, verificou-se quem desenvolveu comprometimento cognitivo — desde quadros leves de perda de memória até diagnósticos como doença de Alzheimer e demência vascular — e quem morreu nesse período.
Resultados principais
Os achados indicam que, a cada 100 pacientes que usaram as "canetas", cerca de 2 a 3 desenvolveram algum grau de comprometimento cognitivo ao longo de 10 anos. Entre os não usuários, esse número foi de aproximadamente 1 a cada 100. Por outro lado, quando se analisa a mortalidade, o cenário se inverte: entre os usuários de GLP-1, cerca de 4 em cada 100 morreram no período, contra cerca de 8 em cada 100 entre os não usuários. Ou seja, quem não utilizava esses medicamentos teve o dobro de chance de morte.
Segundo os autores, o aumento nos casos de declínio cognitivo pode não ser causado diretamente pelos medicamentos, mas sim pelo fato de que esses pacientes vivem mais tempo. "Interpretamos isso como pacientes que sobreviveram por mais tempo e, portanto, tiveram mais tempo para desenvolver comprometimento cognitivo", explicou o pesquisador Isaac Thorman, autor do estudo, ao MedPage Today.
Para o endocrinologista Carlos Eduardo Couri, colunista em VEJA Saúde, a hipótese faz sentido. "Se pessoas tratadas com GLP-1 vivem mais ou têm menos eventos cardiovasculares, elas podem simplesmente ter mais tempo para desenvolver diagnósticos relacionados ao envelhecimento, incluindo comprometimento cognitivo", explica Couri.
Influência da idade
A idade parece fazer diferença nessa equação. Pacientes mais jovens, na faixa dos 50 anos, foram os que mais se beneficiaram em termos de redução do risco de morte. Já entre os mais idosos, especialmente acima dos 80 anos, o cenário se torna mais delicado: além de um aumento mais expressivo no risco de comprometimento cognitivo, não foi observado um efeito protetor claro dos medicamentos. Especialistas que não participaram do estudo apontam que, nessa faixa etária, múltiplas comorbidades podem influenciar o declínio cognitivo, tornando a interpretação ainda mais complexa.
Cautela na interpretação
Para Couri, esse tipo de análise exige cautela. Ele lembra que ensaios clínicos recentes com as "canetas" em pacientes com Alzheimer não mostraram melhora cognitiva, mas tampouco indicaram piora. "O resultado foi de neutralidade clínica, não de malefício." Além disso, estudos baseados em bancos de dados têm limitações relevantes. "Eles não têm o mesmo peso de ensaios randomizados e estão sujeitos a vieses, como diferenças de acesso ao cuidado, gravidade da doença e perfil socioeconômico", diz. Até agora, o conjunto das evidências aponta para um cenário complexo e ainda inconclusivo. "Eu não interpretaria esse achado como evidência de que agonistas de GLP-1 causem declínio cognitivo", afirma Couri. "No máximo, ele deve ser visto como um sinal gerador de hipótese."



