Opus Dei perde status único no Vaticano após reformas de Francisco
Opus Dei perde privilégio único no Vaticano com reformas

Fim de uma era: Opus Dei perde status privilegiado no Vaticano

Nos intricados corredores da máquina política que governa a Igreja Católica, um dossiê especial repousava há anos aguardando uma solução definitiva. Trata-se do caso Opus Dei, que envolve a situação da quase centenária organização que, por mais de quatro décadas, desfrutou de um privilégio inédito e singular na hierarquia do Vaticano. Esse poder concedido, no entanto, está com os dias contados após uma série de reformas impostas pelo papa Francisco, que governou de 2013 até sua morte em 2025.

Uma mudança histórica no status da organização

Em 1982, o papa João Paulo 2º, um conhecido simpatizante da instituição, alterou o status do Opus Dei de instituto secular para prelazia pessoal. Originalmente tipificado em 1947, o instituto secular reconhecia organizações cujos membros seguiam a fé católica sem renunciar às práticas comuns de seu meio social, nem se enclausurar em ordens religiosas tradicionais. A nova classificação, porém, conferiu uma autonomia sem precedentes.

Enquanto as instituições religiosas convencionais estão vinculadas a dioceses baseadas em territorialidade e comandadas por bispos que respondem à Santa Sé, a prelazia pessoal não se fundamenta na localidade, mas sim na pessoa dos membros – daí o termo pessoal. Sob essa estrutura, o Opus Dei não respondia ao bispo da diocese onde estava sediado, mas diretamente ao seu prelado, o líder superior da organização. Até então, foi a única entidade na história da Igreja a receber tal classificação.

As reformas do papa Francisco e suas implicações

As mudanças determinadas por Francisco, no entanto, retiraram recentemente esse status privilegiado. Na teoria, a alteração concedida por João Paulo 2º visava conciliar o carisma da organização – que sempre defendeu o exercício da santidade por leigos – com a necessidade de estruturá-la administrativamente dentro da Igreja. Na prática, conferiu ao Opus Dei uma autonomia singular, isentando-a, por exemplo, da obrigação de prestar contas aos bispos locais. Era como se a organização fosse considerada, ela própria, uma diocese, e tornou-se costume que o papa nomeasse seu prelado como bispo.

Segundo vaticanistas, o papa argentino incomodava-se com a autonomia excessiva do grupo e entendia que nenhuma instituição dentro do catolicismo deveria gozar de um regime de exceção. Em sua ampla reforma na máquina administrativa do Vaticano, Francisco viu a oportunidade de enquadrar a instituição. Para completar o clima de tensão, o sacerdote espanhol Fernando Ocáriz Braña, chefe do Opus Dei desde 2017, não foi nomeado bispo por Francisco, rompendo uma tradição estabelecida. Analistas interpretaram isso como um recado claro: o tempo dos privilégios havia terminado.

Mudanças concretas na estrutura e no poder

Francisco publicou três documentos entre 2022 e 2023 que impuseram transformações profundas no Opus Dei. Primeiramente, a organização passou a se reportar ao Dicastério para o Clero, e não mais ao Dicastério para os Bispos. Dicastérios são órgãos administrativos temáticos comandados por prefeitos nomeados pelo papa. Como antes o Opus Dei tinha um status semelhante ao de uma diocese sem território, respondia ao Dicastério para os Bispos. A mudança para um órgão voltado a assuntos relacionados a padres e diáconos foi vista como um rebaixamento e uma significativa perda de poder.

Além disso, Francisco determinou que o Opus Dei passasse a apresentar relatórios anuais de suas atividades – e não mais a cada cinco anos, como ocorria anteriormente. Oficializou também que o prelado da instituição não seria automaticamente nomeado bispo. Porém, a alteração mais nevrálgica diz respeito ao papel dos leigos, ou seja, os integrantes da organização que não são religiosos consagrados, como padres e freiras.

No entendimento de João Paulo 2º, em comum acordo com o fundador do Opus Dei, os leigos eram considerados membros da prelazia. Em 2023, o então papa mudou o status do Opus Dei de prelazia pessoal para associação clerical pública – que pressupõe uma submissão à hierarquia da Igreja e na qual há uma primazia do clero, embora os leigos também possam participar. Ao tornar o Opus Dei uma associação clerical pública, retirou-lhe margem de manobra e, por consequência, poder, explica o jornalista português Rui Pedro Antunes, autor de um livro sobre o tema.

O futuro sob o papa Leão 14 e as posições conservadoras

Nas últimas semanas, a BBC News Brasil conversou com membros do Opus Dei em quatro países diferentes. Todos solicitaram anonimato, afirmando que as informações oficiais devem ser dadas pelos escritórios de comunicação da organização. Os entrevistados indicaram não se importar com a questão de o prelado não ser mais nomeado bispo. Não é uma guerra pelo poder, disse um deles. Outro ponto debatido é qual pode ser a postura do papa Leão 14, entronado em maio de 2025 após a morte de Francisco.

Quando o atual papa era simplesmente o bispo Robert Prevost, ele comandou a diocese peruana de Chiclayo, entre 2014 e 2023, uma região com diversos sacerdotes ligados ao Opus Dei. Isso, na visão de alguns membros, poderia resultar em uma conduta mais amistosa em relação à organização. Leão 14 já teve conversas privadas com o prelado do Opus Dei, mas nada indica que retrocederá no que foi determinado por Francisco. Mesmo assim, internamente ainda se espera pelo menos alguns ajustes, afirmam os membros.

O cientista político Aldo Fornazieri, professor na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, acredita que uma mudança de rumos sob o novo papado é improvável, porque o Opus Dei vem causando desconforto em vários segmentos católicos. Um texto publicado no site do Opus Dei em junho classificou como falsa a informação de que o papa Leão 14 teria dado um ultimato cobrando celeridade na elaboração do novo estatuto. A organização afirmou que tem trabalhado, em sintonia com as orientações da Santa Sé, para adequar seu estatuto e que o resultado desse trabalho foi entregue ao Vaticano em junho, aguardando aprovação papal.

Contexto histórico e controvérsias

O Opus Dei foi fundado em 1928, na Espanha, pelo religioso Josemaria Escrivá de Balaguer, reconhecido como santo por João Paulo 2º em 2002. Desde o início, a premissa da organização é o exercício da santidade no trabalho, diferenciando-se de outras entidades religiosas ao incentivar seus membros a viver o cristianismo no dia a dia, nas profissões mais diversas – no chamado trabalho ordinário. Entre os pilares da vida na organização, estão valores morais rígidos, oração intensa e constante, renúncia a prazeres e adoção de práticas como jejum e sacrifícios físicos.

Historicamente, há uma ligação do fundador Escrivá com o governo do ditador espanhol Francisco Franco, e pesquisas indicam que o religioso teve apoio da ditadura franquista, o que impulsionou o crescimento do Opus Dei. Ao longo do tempo, as posições do Opus Dei foram se coadunando, devido ao seu tradicionalismo, aos regimes de direita. Em alguns casos, de extrema-direita, analisa o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Recentemente, o Opus Dei se manifestou contrariamente ao casamento entre homossexuais e a legislações pró-eutanásia, por exemplo. Para Moraes, Francisco buscou impor um limite para que o Opus Dei seguisse seu trabalho espiritual, mas evitasse se posicionar em temas que refletem uma posição mais reacionária. A Igreja tem um passado que reforça tais visões, mas há um entendimento de que tais posicionamentos incisivos dificultam o diálogo maior com essas questões contemporâneas, conclui o teólogo.