Frei Sérgio Görgen, fundador do MST e ex-deputado, morre aos 70 anos no RS
Frei Sérgio Görgen, fundador do MST, morre aos 70 anos

Frei Sérgio Görgen, ícone da luta camponesa, morre aos 70 anos no Rio Grande do Sul

O Brasil perdeu nesta terça-feira, 3 de fevereiro de 2026, uma das figuras mais emblemáticas da luta pela reforma agrária e pelos direitos dos trabalhadores rurais. Frei Sérgio Antônio Görgen, frade franciscano, ex-deputado estadual pelo PT e um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), faleceu aos 70 anos de idade, vítima de um infarto em sua residência no assentamento Conquista da Fronteira, localizado no município de Hulha Negra, na região da Campanha gaúcha.

Trajetória de dedicação à causa camponesa e fundação do MST

Conhecido como "profeta da resistência camponesa", Frei Sérgio dedicou toda a sua vida à defesa intransigente da dignidade dos povos do campo, da soberania alimentar e da reforma agrária. Sua atuação começou a ganhar destaque na década de 1980, quando ele ajudou a fundar o MST, movimento que se tornaria um dos principais símbolos da luta pela terra no Brasil. Posteriormente, em 1996, também participou da criação do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), ampliando seu compromisso com as causas rurais.

Além de sua atuação como líder religioso e social, Frei Sérgio ingressou na política institucional, servindo como deputado estadual pelo PT no Rio Grande do Sul entre 2002 e 2006. Em 2022, foi eleito novamente à Assembleia Legislativa gaúcha, desta vez como suplente, demonstrando sua contínua influência e engajamento.

Violência policial e legado de resistência

A trajetória de Frei Sérgio foi marcada por momentos de grande tensão e violência. Ele foi sobrevivente de uma ação policial brutal ocorrida na Fazenda Santa Elmira, em Salto Jacuí, no dia 11 de março de 1989. Na ocasião, aproximadamente quinhentas famílias de militantes que ocupavam a propriedade foram agredidas com tiros, coronhadas e outras formas de violência por agentes da Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Esse episódio reforçou sua determinação na luta pelos direitos humanos e pela justiça social.

Em nota oficial, o MST lamentou profundamente a perda, afirmando que a morte de Frei Sérgio "deixa um vazio imenso na luta social brasileira, mas seu legado de soberania alimentar e dignidade camponesa permanece vivo". Já o MPA destacou que o frade "vivia o Evangelho nas trincheiras da luta pela terra", ressaltando sua ética e dedicação inabaláveis.

Apoio espiritual a Lula durante a prisão e homenagens do presidente

Além de sua atuação política e no campo, Frei Sérgio manteve uma relação próxima com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Durante o período de prisão de Lula em Curitiba, entre abril de 2018 e novembro de 2019, o frade realizou diversas visitas ao petista, prestando-lhe apoio espiritual e emocional no cárcere.

Após o anúncio do falecimento, Lula publicou uma mensagem nas redes sociais expressando sua tristeza e gratidão. "Estou muito triste com a partida de meu grande amigo, Frei Sérgio Antônio Görgen", escreveu o presidente. Ele acrescentou: "A fé e as sábias palavras de Frei Sérgio durante suas visitas em Curitiba me ajudaram a atravessar com força e esperança os momentos difíceis da prisão injusta a que fui submetido". Lula também enalteceu o histórico do frade, mencionando suas greves de fome e sua luta "pela alimentação do corpo e da alma".

Velório e cerimônias de despedida no Rio Grande do Sul

O velório de Frei Sérgio Görgen está sendo realizado em uma série de cerimônias religiosas programadas para os dias 3 e 4 de fevereiro, abrangendo os municípios gaúchos de Hulha Negra, Candiota e Imigrantes. Esses eventos congregam familiares, amigos, militantes e admiradores que desejam prestar suas últimas homenagens ao líder histórico.

Fernando Moretti, diretor de Políticas do instituto Conexsus, organização com a qual Frei Sérgio colaborava, definiu o frade como "uma referência ética e política fundamental, dedicado à defesa intransigente da dignidade camponesa, à soberania alimentar e à construção de alternativas concretas para os povos do campo". Sua morte representa não apenas a perda de um indivíduo, mas o fim de uma era de resistência e compromisso com as causas sociais no Brasil.