Cerimônia de lavagem da escadaria da Catedral de Campinas reforça luta contra intolerância religiosa
Há 41 anos, uma agressão motivada por preconceito religioso deu origem a uma das tradições mais significativas de Campinas, no interior de São Paulo. A lavagem da escadaria da Catedral Metropolitana, realizada neste sábado santo (4), transformou um ato de violência em um símbolo de resistência e união inter-religiosa, reconhecido como patrimônio imaterial da cidade em 2022.
Origens marcadas por dor e superação
A história remonta a 1983, quando Nengua Dya Nikisi, conhecida como Mãe Dango, trabalhava como gari e foi violentamente agredida em frente à Catedral por usar um fio de conta do Candomblé. "Eu estava com meu fio de conta e fui xingada de feiticeira, maldita, um monte de nome. Eu fiquei muito brava e me machuquei", relembra a religiosa, que na época estava em seu primeiro ano de iniciação.
Após compartilhar a experiência dolorosa com outras mulheres, incluindo Mameto Oya Corajacy, surgiu a ideia de criar um ritual de purificação. "Vamos fazer a lavagem da escadaria, porque só tem lá na Igreja do Bonfim [de Salvador]. Vamos trazer. E era na época de chegar a quaresma, por isso que é no Sábado de Aleluia", explicou Mãe Dango. Corajacy complementa que a cerimônia também representou uma retribuição à acolhida recebida em Campinas.
Significado profundo do ritual
O ritual honra a memória do povo Bantus, etnia predominante entre os negros escravizados trazidos ao Brasil. Durante a cerimônia, os participantes derramam água de cheiro "aos pés de Nossa Senhora da Conceição" e esfregam cada degrau com vassouras, em um ato que vai além do religioso. "Além da questão religiosa, a lavagem agrega um momento de muita fé e também a questão da cultura popular", detalha Mãe Dango.
Os elementos utilizados carregam simbolismos poderosos:
- Flores brancas: representam a vida e o desabrochar das qualidades internas.
- Água: simboliza o nascimento e as energias renovadoras.
- Pembas (giz ritualístico): encarnam o fogo da purificação.
- Cantigas: expressam fé e esperança através do ar.
Memória da resistência escravizada
A escolha do local não é casual. O cortejo parte da Estação Cultura e percorre a Rua 13 de Maio até a praça da Catedral, local historicamente marcado por uma revolta de escravizados contra a polícia. "Como ali teve uma revolta de escravos com a polícia, então a gente desce para fazer os 500 anos de libertação", explica Mãe Dango, lembrando que Campinas foi a última cidade a abolir efetivamente a escravidão no Brasil.
Esta cerimônia anual, que reúne praticantes de Candomblé, outras religiões de matriz africana e simpatizantes de diversas crenças em um espaço tradicionalmente católico, serve como um poderoso antídoto contra a intolerância. Ao transformar uma agressão em um ato de purificação coletiva, a comunidade de Campinas demonstra que a fé pode ser uma força unificadora em meio à diversidade, preservando a memória histórica enquanto constrói pontes entre diferentes tradições religiosas.



