Aos 86 anos, artesã mantém viva tradição de confeccionar mantos sagrados no Acre
Há treze anos, a aposentada Neline Rocha Samosa, de 86 anos, mantém uma tradição de fé e dedicação no estado do Acre. Natural de Boca do Acre, no Amazonas, e residente em Rio Branco desde os 18 anos, ela é a responsável pela confecção artesanal do manto utilizado na imagem de Nossa Senhora de Nazaré durante o tradicional Círio, que ocorre anualmente no mês de outubro.
Uma jornada de amor e devoção
Neline iniciou este trabalho especial ainda em 2001, quando produziu seu primeiro manto. Após um período de pausa, retomou a atividade em 2014 e, desde então, confecciona a peça sagrada todos os anos. "É um amor muito grande, incondicional, e não posso viver sem Maria", explica emocionada a servidora pública aposentada, que realiza todo o serviço gratuitamente como forma de gratidão pela saúde e bem-estar dela e de sua família.
O meticuloso processo de criação
O trabalho começa logo no início do ano, quando Neline conversa com o padre Manoel Costa, responsável pelo Círio. "Ele me dá a cor e alguns detalhes, o restante fica por minha conta", afirma a artesã experiente, que desenha, costura e borda manualmente cada detalhe do manto em seu pequeno ateliê doméstico.
O processo criativo inclui:
- Pesquisa de referências e inspirações
- Desenho dos elementos que serão aplicados
- Transferência dos desenhos para o tecido
- Aplicação manual de pedrarias em toda a extensão da peça
"Você não vê o tecido, só vê as pedras", destaca Neline sobre o resultado final de seu trabalho minucioso.
Segredo e surpresa como elementos da tradição
A artesã mantém todo o processo em absoluto segredo até o momento da revelação. "Eu não mostro para ninguém. A surpresa das pessoas é o que é bonito", acrescenta. O tema do manto varia a cada ano, e para a edição de 2026, Neline adiantou que a inspiração tem relação com o conceito de esperança.
Entrega cerimonial e emoção compartilhada
O manto precisa estar pronto aproximadamente quinze dias antes do Círio de Nazaré, tradicionalmente celebrado no segundo domingo de outubro. A entrega acontece durante uma missa especial, em uma cerimônia que emociona a todos os presentes.
"Entro pela porta principal da igreja, levando o manto nas mãos até o altar, onde é feita a troca da peça antiga pela nova junto ao padre. É uma cerimônia linda. Agradeço a Deus e a Nossa Senhora por conseguir concluir mais um ano pois tudo que eu faço tem amor", descreve Neline.
Fé como motivação e estilo de vida
A produção dos mantos não resulta de promessa, mas sim de gratidão espontânea. "Foi espontâneo, para agradecer a Maria por tudo que ela fez e faz na minha vida", explica a devota, que atribui à fé sua disposição para seguir ativa aos 86 anos.
Casada há 50 anos, mãe de três filhos, avó de dez netos e bisavó de dois bisnetos, Neline mantém sua fé católica mesmo com filhos evangélicos. "Para ver como é a fé, meus filhos hoje são evangélicos e continuo sendo católica e devota de Nossa Senhora, mas nem por isso eles deixam de me incentivar", relata com orgulho.
Um legado de amor e dedicação
Mesmo com a idade avançada, Neline não pensa em parar. "É uma coisa que me satisfaz, me eleva. Preciso fazer. É um trabalho que me entrego por completo. É uma emoção tão grande que, quando começo a tecer, já me emociono e fico assim desde a confecção até o dia em que venho entregar", destaca a artesã, que dedica em média uma a duas horas diárias ao trabalho, inclusive nos finais de semana.
Além dos mantos sagrados, Neline e sua irmã criaram um ateliê onde mais de sessenta noivas confeccionaram seus vestidos de casamento, demonstrando que seu talento artesanal transcende o âmbito religioso, embora seja nele que encontre sua maior expressão de fé e devoção.



