A história por trás de um dos maiores sucessos do sertanejo brasileiro, 'Muda de Vida', de Zezé di Camargo e Luciano, começou com uma briga entre os compositores Fátima Leão e Carlos Randall. O motivo? Um atraso de sete horas por causa de uma bebedeira. Lançada em 1992, a música rapidamente se tornou um clássico e marcou a carreira da dupla.
O atraso que virou inspiração
Fátima Leão, de 70 anos, é uma das maiores hitmakers do Brasil, com mais de 2 mil músicas gravadas. Entre elas, 'Muda de Vida' tem uma das histórias mais curiosas. Ela havia marcado com Carlos Randall às 11h, mas ele só apareceu na casa dela às 18h. O motivo: um churrasco regado a bebida. 'Ele foi para um churrasco, encheu a cara. Ele quase não bebe, né? Goiano não bebe', brinca Fátima. Randall explicou que já estava no endereço há um bom tempo, mas tinha dormido dentro do carro e subiu para o apartamento apenas no fim da tarde.
Discussão vira letra
A compositora ficou bastante irritada e xingou o colega. 'Falei: Você é um idiota, mesmo, né?', lembra. Em vez de se defender, Randall respondeu: 'Ah, não sei onde que eu ando com a cabeça'. A irritação de Fátima se dissolveu ali e deu lugar à inspiração. Os fãs de Zezé e Luciano reconhecerão partes da discussão logo na primeira estrofe da música: 'Não sei aonde eu ando com a cabeça / O que é que eu vou fazer pra que eu te esqueça? / Por mais que você faça não tem jeito / Eu me sinto um idiota'.
Fórmula do sucesso
Fátima acredita que o sucesso da música sertaneja está em falar o que as pessoas vivem no dia a dia, especialmente sobre 'amores mal resolvidos' e sofrimento. 'A gente fala o que a pessoa quer ouvir, o que a pessoa sente e o que ela vive', afirma. Ela destaca que as músicas de maior sucesso são justamente as que falam de amores que deram errado. 'O que é mal resolvido para uma mulher dá certo para a gente que escreve. O amor é um tema inesgotável', diz.
Trajetória de superação
Com 40 anos de carreira, Fátima tem mais de 2 mil músicas gravadas, mas o início foi difícil. Antes do sucesso, trabalhou como doméstica, babá, manicure e vendedora de rua. Além da dificuldade financeira, enfrentou o machismo. Em Goiânia, era impedida de se apresentar em rádios locais. 'Muitas duplas cantavam sem ter LP gravado. E eu pedia para cantar e não me deixavam. Não, você não pode cantar, você não vai cantar. Então o preconceito sempre existiu. Eu peguei e levantei minha cabeça', afirma.
Voz feminina no sertanejo
Em meio a um ambiente bastante masculino, Fátima percebeu que poderia explorar um ponto de vista que, anos mais tarde, ficaria ainda mais popular na voz de Marília Mendonça. 'As músicas que eu sempre fiz eram de homens cantando o que as mulheres querem ouvir', afirma. 'Porque às vezes o homem quer falar e não sabe. Mas nós falamos pra eles e eles falam pra nós', brinca.
Esta história faz parte de uma série de reportagens sobre música sertaneja que marca o lançamento do concurso cultural 'ÉPra Cantar'. Nesta edição, a dupla vencedora vai se apresentar na Festa de Peão de Barretos, o maior rodeio da América Latina.



