Seu Chico Roberto mantém viva tradição indígena com damurida em Boa Vista
O aposentado Francisco Roberto, conhecido carinhosamente como Seu Chico Roberto, aos 70 anos, encontrou na damurida uma forma de conectar seu passado indígena com o presente. Toda quinta-feira, ele transforma sua casa no bairro Caçari, em Boa Vista, no ponto de encontro dos amantes deste prato tradicional do povo Macuxi.
Da aposentadoria ao empreendedorismo cultural
Indígena Macuxi, Seu Chico tem uma trajetória diversa: foi funcionário do Banco do Brasil e exerceu por duas vezes o cargo de prefeito em Pacaraima. Desde 2019, no entanto, sua missão é outra: valorizar e preservar a tradição indígena através do empreendimento "Quinta da Damurida".
"Como eu estava aposentado, fui buscar uma coisa bem nossa para fazer. Lembrei da minha infância. Sou de uma comunidade indígena, minha mãe fazia, todo mundo fazia", revela o empreendedor, que é o mais velho de cinco irmãos.
O significado da damurida
A damurida é muito mais que um simples caldo. Considerado alimento sagrado para os povos Macuxi, Wapichana e Taurepang, este prato forte e apimentado, geralmente preparado com peixe, carrega consigo:
- Ancestralidade transmitida por gerações
- Resistência cultural dos povos indígenas
- Patrimônio cultural e imaterial de Boa Vista
"Uma tradição familiar que também virou tradição aqui nas quintas-feiras dos roraimenses", define Seu Chico com orgulho.
Por que apenas às quintas-feiras?
A escolha do dia específico tem explicação prática. A quinta-feira é o único dia que não interfere em dois compromissos importantes na vida de Seu Chico:
- O futebol com os amigos
- As viagens para Surumu, sua comunidade de origem localizada a aproximadamente 215 quilômetros de Boa Vista, onde passa os fins de semana
Adaptações e variedades do cardápio
Para atender ao público urbano, Seu Chico fez algumas adaptações na receita tradicional, incluindo o jambu e servindo a pimenta separadamente. Sua damurida de peixe é preparada com:
- Tambaqui
- Jambu
- Tucupi
- Verduras diversas
O prato é acompanhado de farinha amarela ou beiju (produzido a partir da goma e da massa de mandioca). Para quem prefere alternativas ao peixe, o cardápio oferece:
- Miudinho de carne de sol (preparado com carne seca, maxixe, macaxeira e jerimum)
- Paçoca de carne, outro alimento típico indígena
Aprendizado e tradição familiar
Seu Chico aprendeu a fazer damurida observando familiares mais velhos na comunidade Surumu, onde passou parte da infância. Essa conexão com as raízes indígenas é o que motiva seu trabalho atual.
O empreendimento não é apenas um negócio, mas uma forma de preencher os dias da aposentadoria com significado, aproveitando seu hobby de cozinhar para manter viva uma tradição que atravessa gerações.



