Ex-estagiária do Noma revela clima de medo e humilhações na cozinha de René Redzepi
Namrata Hegde, uma chef indiana de 29 anos, descreve com clareza a atmosfera opressiva que dominava a cozinha do renomado restaurante Noma, em Copenhague, durante seu estágio não remunerado em 2018. "Quando ele chegava, dava para sentir a ansiedade e o medo dos funcionários", afirma Hegde, referindo-se à presença do chef dinamarquês René Redzepi, que comandou o estabelecimento por mais de duas décadas.
Denúncias públicas e afastamento do chef
Redzepi anunciou nesta quarta-feira (11) que deixou o cargo de liderança do Noma após uma série de denúncias publicadas pelo jornal The New York Times. O periódico ouviu aproximadamente 35 ex-funcionários que trabalharam no restaurante entre 2009 e 2017, revelando um padrão de agressões verbais, humilhações e abusos físicos.
Em uma nota publicada no Instagram, o chef reconheceu sua responsabilidade: "Tenho trabalhado para ser um líder melhor e o Noma deu grandes passos para transformar sua cultura ao longo de muitos anos. Reconheço que essas mudanças não reparam o pasto". Redzepi também anunciou sua saída do conselho da MAD, organização sem fins lucrativos que ele mesmo fundou em 2011.
A experiência traumática de uma estagiária
Namrata Hegde realizou um estágio de três meses no Noma entre outubro e dezembro de 2018, período em que os estágios no restaurante ainda não eram remunerados. Apesar do custo financeiro para sua família, ela via a oportunidade como um sonho para uma chef recém-formada: trabalhar em um estabelecimento com três estrelas Michelin, onde um menu pode custar cerca de R$ 7 mil por pessoa.
Porém, a realidade divergiu completamente das promessas iniciais. Em vez da experiência educacional completa anunciada, com jornada de 37 horas semanais e passagem por diferentes áreas da cozinha, Hegde encontrou:
- Tarefas repetitivas e monótonas
- Ambiente extremamente competitivo e tenso
- Comportamentos de sabotagem entre estagiários
- Clima marcado por silêncio e disciplina excessiva
"Você não podia conversar, não podia rir. Pegava mal", relata a chef sobre a atmosfera na cozinha do Noma.
Incidentes reveladores da cultura tóxica
Um episódio particularmente marcante ocorreu quando um estagiário cortou a mão enquanto fatiaba maçãs. Em vez de receber ajuda imediata, algumas pessoas riram e comentaram que ele "não era material para o Noma". O jovem precisou procurar sozinho o kit de primeiros socorros.
Para Hegde, esse comportamento refletia diretamente a liderança de Redzepi. "Parte dessa cultura também deve continuar sendo reproduzida por outros chefs que seguem trabalhando no restaurante", avalia a ex-estagiária.
Consequências duradouras e ceticismo
Após sua experiência no Noma, Namrata Hegde enfrentou ansiedade, sensação constante de urgência e sintomas de estresse pós-traumático. Apesar das dificuldades, o episódio reforçou seu compromisso com o respeito no ambiente profissional: "Faço questão de tratar todos com respeito, independentemente do cargo".
Atualmente vivendo em Nova York, onde atua como food stylist e escreve sobre comida, Hegde expressa ceticismo sobre o afastamento anunciado por Redzepi. "Não acredito que o chef vá realmente se afastar completamente", afirma, lembrando que Redzepi ainda está ligado a outros restaurantes na Dinamarca.
A chef indiana também não se convence com as desculpas públicas do ex-comandante do Noma, destacando que um simples pedido de desculpas não é suficiente para reparar os danos causados por anos de comportamento abusivo e criação de um ambiente de trabalho tóxico.



