Alejandro Vigil, o enólogo da Catena Zapata que desafia o esnobismo do vinho
Enólogo da Catena Zapata desafia esnobismo e valoriza vinhos populares

Alejandro Vigil: a mente revolucionária por trás dos vinhos da Catena Zapata

Os brasileiros conhecem bem os vinhos da Catena Zapata, vinícola argentina que conquistou um lugar de destaque no mercado internacional. Porém, poucos sabem que o responsável por elevar o prestígio da empresa a patamares globais é o enólogo Alejandro Vigil, uma figura que desafia convenções e prega a democratização do bom vinho.

O profissional que refuta o título de "dream team"

Vigil assumiu o posto de enólogo da Catena Zapata no início dos anos 2000 e, desde então, multiplicaram-se os rótulos da vinícola que alcançaram a pontuação máxima (100 pontos) nas avaliações de especialistas. Um feito raro para vinhos produzidos na América do Sul. Apesar disso, ele rejeita o título de integrante do "dream team" dos enólogos mundiais por pura modéstia.

"Mais difícil do que fazer um vinho de 100 pontos é produzir um Alamos", declarou Vigil em encontro recente em São Paulo, referindo-se ao rótulo mais acessível da Catena, encontrado por cerca de 100 reais. Para ele, vinhos populares exigem consistência obsessiva ano após ano, enquanto os rótulos de luxo podem nascer de terroirs excepcionais.

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Filosofia antiesnobismo e pragmatismo

Alejandro Vigil demonstra pouca paciência com o esnobismo do mundo do vinho. Já foi criticado por receber jogadores de futebol e pessoas sem intimidade com a bebida na vinícola, mas rebate com pragmatismo: "Quem compra uma garrafa não é tonto". Sua defesa é clara: o vinho precisa de mais alcance e disponibilidade, não de barreiras.

Seu visual despojado – cabelo desorganizado, camiseta, bermudas e tênis – contrasta com a imagem clássica dos "enochatos" e reflete sua trajetória. Neto de avós sevilhanos, bascos e libaneses, Vigil era um curioso obsessivo antes de se tornar influente. "Gastava metade do meu salário em vinhos e escondia o valor da minha mulher", confessou sobre sua época trabalhando no Inta, equivalente argentino da Embrapa.

Conexões globais e visão sobre o Brasil

Vigil mantém relações com lendas do vinho mundial. Visita regularmente a Domaine de la Romanée-Conti, na Borgonha, e é recebido por Aubert de Villaine. No próximo mês, passará temporada no Piemonte a convite de Angelo Gaja para discutir vinhos brancos.

Sobre a produção brasileira, o enólogo fez um paralelo interessante: "A Argentina também já foi considerada exótica". Ele acredita que o Brasil precisa de trabalho para construir identidade vinícola, missão atual das vinícolas nacionais.

Inovação no serviço e restaurante próprio

No restaurante Casa Vigil (El Enemigo), em Mendoza, ele inverte a lógica clássica da harmonização, servindo vinhos antes da comida. "A ideia é que cada um encontre seu próprio caminho, sem manual", justifica. O almoço com menu de três passos e tour custa entre R$ 615 e R$ 800 por pessoa, com mais de 80% do público sendo brasileiro.

Alejandro Vigil representa uma nova era no mundo do vinho: menos regras, menos discursos prontos e mais curiosidade. Seu maior desafio não é criar vinhos perfeitos, mas garantir que o bom vinho seja acessível a todos, redefinindo o acesso à bebida com consistência e despojamento.

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