Brasil entra para a história da gastronomia com primeiras três estrelas Michelin da América Latina
O Brasil alcançou um marco histórico na gastronomia mundial ao se tornar o primeiro país da América Latina a contar com dois restaurantes agraciados com três estrelas no prestigiado Guia Michelin. Os estabelecimentos Evvai e Tuju, ambos localizados em São Paulo, receberam a honraria máxima durante uma cerimônia realizada na noite de 13 de abril no icônico Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Este reconhecimento coloca a culinária brasileira em um patamar internacional inédito, destacando a excelência e inovação de chefs que têm investido em pesquisa, ingredientes locais e experiências únicas para os comensais.
Tuju: sofisticação discreta e menu guiado pelas estações
Localizado na Rua Frei Galvão, no Jardim Paulistano, zona oeste da capital paulista, o Tuju opera em um prédio discreto, quase imperceptível na via sem saída. A entrada sutil conduz os visitantes por um corredor repleto de quadros e prêmios até uma sala de espera que antecipa a experiência gastronômica, servindo três aperitivos em um ambiente que lembra uma praça com uma árvore iluminada. O restaurante funciona com apenas nove mesas por noite, acomodando no máximo 30 pessoas, e conta com cerca de 40 colaboradores dedicados a proporcionar uma experiência imersiva.
O chef executivo Ivan Ralston, formado em gastronomia em Barcelona e em música em Boston, reúne a equipe antes de cada serviço para um briefing detalhado, ajustando tudo conforme as necessidades dos clientes. O menu degustação oferece 10 pratos e duas sobremesas, complementados por um carrinho de pães artesanais. A proposta central do Tuju é baseada na sazonalidade, com cardápios que mudam a cada três meses, refletindo as condições climáticas do estado de São Paulo:
- Umidade: corresponde à primavera
- Chuva: representa o verão
- Ventania: caracteriza o outono
- Seca: simboliza o inverno
Após dois anos de pesquisa, a equipe identificou que a qualidade dos ingredientes está diretamente ligada ao índice pluviométrico, determinando o período ideal de colheita. Frutas, hortaliças e ervas são adquiridas de produtores locais, enquanto peixes são selecionados pessoalmente pelo chef duas vezes por semana, respeitando a sazonalidade do mar. As carnes são todas de origem brasileira, provenientes de criações com responsabilidade socioambiental.
O menu "chuva", visitado pela reportagem, destacava ingredientes como ostra, ouriço, lula, tomate, carabineiro, peixe, cordeiro, manga e cacau, combinados com elementos como berinjela, cambuci, abóbora e algas. A experiência termina no terraço, com guloseimas como bombons, marshmallows e queijos paulistas. O valor do jantar é de R$ 1.500 por pessoa, com taxa de serviço de 15% à parte, e harmonizações que variam de R$ 550 a R$ 2.100. A procura é intensa, com a casa lotada até junho e cerca de 400 reservas feitas após o anúncio do Guia Michelin.
Evvai: fusão ítalo-brasileira em ambiente sofisticado
Já o Evvai, situado na Rua Joaquim Antunes, no bairro de Pinheiros, também na zona oeste de São Paulo, traduz em cada detalhe a fusão entre as culturas brasileira e italiana. O chef Luiz Filipe Souza, que representou o Brasil no Bocuse D'Or em 2019, comanda a casa, que oferece um ambiente intimista para até 51 pessoas, com iluminação baixa, madeira clara e estofados azuis.
O restaurante materializa a chamada cozinha Oriundi, que se refere a uma culinária italiana imigrante integrada aos produtores locais e às tradições das grandes imigrações italianas, mas sob a ótica de uma troca cultural. Os clientes recebem cartas individuais, ilustradas e escritas pelo próprio chef, que descrevem cada etapa da experiência como capítulos de uma narrativa, apresentando ideias, referências e sensações.
O menu degustação, que custa R$ 1.650 (podendo ultrapassar R$ 3 mil com harmonizações), inclui pratos como ostra com cambuci e pepino, lula com tutano defumado e caviar, e rigatoni de pupunha com açaí e amêndoas. As sobremesas, como iogurte com mel de emerina e papaia com cassis, exploram a biodiversidade brasileira e memórias afetivas. O chef Luiz Filipe destacou que o reconhecimento com a terceira estrela foi uma surpresa emocionante, fruto de nove anos de evolução e amadurecimento da equipe.
Desafios e expectativas após a conquista histórica
Ambos os chefs enfatizaram que o prêmio traz consigo grandes responsabilidades e expectativas elevadas. Ivan Ralston, do Tuju, afirmou que o desafio agora é melhorar a cada dia, mantendo a naturalidade e evitando o estresse. Já Luiz Filipe, do Evvai, ressaltou que a equipe está mais feliz do que nunca e continuará a oferecer uma cozinha baseada em produtos incríveis do Brasil, com muita criatividade e texturas.
Esta conquista não apenas consolida São Paulo como um destino gastronômico de excelência, mas também inspira toda uma geração de chefs e profissionais da área a investir em qualidade, pesquisa e valorização dos ingredientes nacionais. A gastronomia brasileira, agora reconhecida no mais alto nível internacional, demonstra que a combinação de técnica, inovação e respeito às origens pode levar ao topo do cenário mundial.



