Do Sertão ao Jazz: A Vida dos Artistas no Retiro dos Artistas do Rio
Fundado em 1918, o Retiro dos Artistas, localizado no bairro de Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro, representa um refúgio único para atores, produtores, circenses, maquiadores e cantores de todo o país que enfrentaram vulnerabilidade financeira. Trata-se de um pequeno vilarejo equipado com diversas áreas recreativas, incluindo teatro, cinema, biblioteca, piscina e um restaurante que serve seis refeições diárias. Atualmente, cinquenta e cinco pessoas residem no local, cada uma em sua casinha de até dois cômodos, criando uma comunidade vibrante de artistas que encontraram um lar em meio à solidariedade e ao apoio mútuo.
Histórias de Adaptação e Superação
O programa semanal da coluna GENTE esteve no local para conhecer suas dependências e conversar com alguns dos artistas residentes, revelando histórias emocionantes de adaptação e resiliência. A seguir, apresentamos a vida de alguns desses talentos que hoje chamam o Retiro de lar, destacando suas jornadas pessoais e profissionais.
Rui Rezende: O Homem do Sertão
Rui Rezende, de 88 anos, conhecido por interpretar Astromar Junqueira na novela Roque Santeiro (1985), mora no Retiro desde 2019. Sua adaptação foi desafiadora, especialmente com a chegada da pandemia em 2020, pouco tempo após sua mudança. "No momento em que entrei, minha carreira já estava em declínio, já tinha acabado o apogeu. Achei melhor vir para cá, porque além do custo maior lá fora, não teria condições de bancar por muito tempo", confessou à coluna GENTE. No dia a dia, ele se considera um homem do "sertão", preferindo viver em seu próprio canto, com hábitos como ler, assistir à televisão e ir ao mercado, enquanto sente falta de sua filha e ex-mulher, que residem em Miami.
Marcos Oliveira: A Arte Viva
Marcos Oliveira, de 69 anos, é o mais recente morador do Retiro, tendo chegado em agosto de 2025. Ele vive em uma casa de um cômodo com sua shih tzu preta, Lola, e faz questão de mostrar que a arte permanece viva em si mesmo. "Viver aqui é ótimo. Só que tem que se adaptar. Na hora da refeição, eles fazem comentários e só falam sobre o passado, eu não estou no passado", compartilha. Apesar de não conviver muito com os outros moradores, ele se declara feliz na vila, focando em aulas de dublagem e em sua vivência atual, recebendo poucas visitas por escolha própria.
Flora Purim: Jazz e Paz
Flora Purim, de 83 anos, demorou para se adaptar à vila, chegando em 2023 após uma recusa inicial. "No começo, não queria ficar, porque tem gente que não compreende o que é o Retiro dos Artistas, acha que é um lugar que você vai para morrer. E é, mas você vai morrer de qualquer maneira, então morrer em paz é muito mais legal", admitiu. Cantora de jazz e três vezes indicada ao Grammy, Flora está se preparando para um show no Blue Note e recebe visitas anuais de familiares em Los Angeles. Hoje, vive com seu marido Airto Moreira, de 84 anos, e valoriza a diversidade de artistas no local, incluindo plásticos e diretores de cinema.
Outras Vozes do Retiro
A produtora cultural Rita Maia, de 62 anos, descobriu o Retiro no Instagram enquanto morava em Búzios e se aposentara por invalidez. Desde dezembro de 2024, ela ama viver na vila, mantendo-se ativa com peças, aulas de dublagem, grupo de teatro e seu livro Por Onde Andará Rita Maia. Sonia Zagury, de 91 anos, conhecida por interpretar a cozinheira Antonia em Terra Nostra, mudou-se em 2023 após um tombo que dificultou sua mobilidade. No condomínio, fez amigos e superou a depressão, curtindo até o Carnaval no Império Serrano.
O diretor de cinema Osvaldo Sargentelli, de 93 anos, adaptou-se rapidamente desde agosto de 2025, destacando o acolhimento entre os artistas. "Somos todos velhinhos, mas somos artistas, a gente tem o olho do humor, da simpatia, do acolhimento e do carinho", exalta. Pedro Castro Ernesto, de 90 anos, mantém uma vida artística ativa com aulas de canto e preparação de repertórios, enfatizando que a idade não define a vitalidade dos residentes.
Um Lar de Solidariedade
O Retiro dos Artistas não é apenas um abrigo, mas um espaço onde a criatividade e a camaradagem florescem, oferecendo suporte essencial para artistas em uma fase delicada de suas vidas. Com planos de saúde, cuidadores e uma estrutura completa, o vilarejo prova que envelhecer pode ser uma experiência positiva e enriquecedora, repleta de atividades e amizades que renovam o espírito artístico.



