Ary Fontoura, aos 93 anos, mantém vitalidade e rejeita ideia de aposentadoria
Duas semanas após o término da novela Êta Mundo Melhor, da TV Globo, Ary Fontoura já se prepara para retornar às telas, desta vez nos cinemas. Em Velhos Bandidos, que estreia na próxima quinta-feira (26 de março), ele interpreta, ao lado de Fernanda Montenegro, um casal que planeja assaltar um banco para recuperar um dinheiro devido. Mesmo no intervalo entre o folhetim e o longa-metragem, o ator não se afastou do público, publicando vídeos diários no Instagram, principalmente esquetes de humor de um minuto, que lhe renderam sete milhões de seguidores.
"Não tenho parado de trabalhar e talvez eu esteja sendo mais procurado agora do que antes", afirma Fontoura. Aos 93 anos, o artista não considera a aposentadoria e lida bem com as limitações impostas pela idade diante das longas jornadas de gravação, comuns nas novelas. "Se eu disser que não quero fazer mais nada, que vou fechar, que agora acabou, isso não me agrada. Eu gostaria de estar nessa batalha até quando desse. Aposentadoria é uma palavra da qual fujo, e trabalhar é uma palavra que adoro", ele complementa.
Reflexões sobre humor e redes sociais
Em entrevista à BBC News Brasil por videoconferência, Fontoura refletiu sobre sua carreira de quase oito décadas, as transformações da televisão, o espaço para atores seniores e o humor contemporâneo. Ele destacou que o humor não tem limites intrínsecos, mas as circunstâncias sociais impõem restrições. "Hoje as pessoas são temerosas do ridículo, então precisa tomar cuidado quando o humor interfere na vida de cada um para não ferir", explicou.
Sobre as redes sociais, onde se tornou um fenômeno, Fontoura admite que é como "andar sobre o fio da navalha", com risco de reações negativas ou cancelamento. "As redes sociais buscam destruir as pessoas", disse, mas atribui seu sucesso à empatia e ao cuidado em não atingir o público. Ele também comentou que a exposição pessoal é controlada, permitindo que ele mantenha discrição quando necessário.
Mudanças na televisão e espaço para atores seniores
Fontoura observou que a TV evoluiu positivamente em termos técnicos, com imagens mais rápidas e ousadas, mas criticou a simplificação das histórias atuais. "Antes era mais livre. A gente dizia 'poxa, como essa novela vai bem, vamos dar uma esticadinha'. Não se tem mais essa possibilidade", lamentou. Quanto à queda de audiência das novelas, ele atribuiu à impaciência do público moderno, que exige ritmos mais acelerados.
Sobre o espaço para artistas mais velhos, Fontoura se considerou privilegiado, afirmando que continua sendo muito procurado. "Não tenho parado de trabalhar e talvez eu esteja sendo mais procurado agora do que antes", reiterou. Ele reconheceu que as longas jornadas de gravação podem ser desafiadoras com a idade, mas enfatizou o entusiasmo pelo trabalho como motivador.
Sonhos e perspectivas futuras
Apesar da longa carreira, Fontoura ainda tem sonhos não realizados. "Há inúmeros papeis que gostaria de fazer. São sonhos. A vida é isso. Você tem que sonhar", afirmou. Ele rejeita firmemente a aposentadoria, vendo o trabalho como essencial para uma vida significativa. "Convido as pessoas a entenderem que a vida continua e que, enquanto há vida, há esperança", concluiu.
No filme Velhos Bandidos, ele destacou a importância do elenco sênior, incluindo Tony Tornado e Reginaldo Faria, valorizando a experiência e a memória coletiva. "Nosso elenco é, sim, um elenco de pessoas maduras — amadurecidas, melhor dizendo —, mas que está lá fazendo com o maior prazer", disse, celebrando a vitalidade e a paixão pelo ofício.



