A influência dos bicheiros no Carnaval carioca: como o crime organizado moldou a folia
Muito antes que produções audiovisuais como as séries Os Donos do Jogo e Vale o Escrito popularizassem histórias do Jogo do Bicho, a ligação entre esse crime organizado e o entretenimento já era profundamente enraizada no Rio de Janeiro. Na verdade, a influência dos bicheiros é tão significativa que diversos deles podem ser considerados verdadeiros senhores do Carnaval, moldando a folia carioca ao longo de décadas.
Figuras infames e sua ascensão no mundo do samba
Dentre as personalidades mais notórias, destaca-se o Capitão Guimarães, hoje com 84 anos. O ex-oficial do exército, apontado pela Comissão da Verdade como torturador do DOI-Codi, abandonou a farda pelo crime nos anos 1980. Apesar de acusações de homicídio e corrupção, ele se tornou presidente da Vila Isabel em 1983, ao lado de outro bicheiro, Waldemiro Garcia, conhecido como Miro, que posteriormente assumiria o papel de patrono da Salgueiro.
Em 1984, Guimarães e mais nove dirigentes das principais escolas de samba fundaram a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa). O ex-militar presidiu a organização em dois períodos distintos: entre 1987 e 1993, e de 2001 a 2007. Esse modelo permitiu que bicheiros convertessem o dinheiro obtido ilegalmente em um verniz de influência social, consolidando seu poder no Carnaval.
O domínio sobre os títulos e a estrutura das escolas
Desde a criação da Liesa, apenas dez escolas sem envolvimento de bicheiros conseguiram conquistar um título no Rio de Janeiro. As outras 31 vitórias estão ou já estiveram diretamente conectadas ao Jogo do Bicho. A Beija-Flor, por exemplo, tem Anísio Abraão David como seu patrono até os dias atuais. Em 2007, o criminoso foi preso pela Polícia Federal durante a Operação Hurricane, acusado de ameaçar jurados para garantir o título à escola.
A Imperatriz Leopoldinense contava com o apoio de Luizinho Drummond, enquanto a Mocidade era apoiada por Castor de Andrade, conhecido como o maior bicheiro do Brasil. O dinheiro proveniente do crime permitiu que essas agremiações atingissem parâmetros inalcançáveis para escolas como a Império Serrano, fundada em 1947 e isenta de ligações com a contravenção.
O papel da Liesa e a perpetuação da influência
Outro fator que favorece as escolas ligadas aos bicheiros é que, desde sua criação, a Liesa é responsável por organizar os desfiles e selecionar os jurados. Essa estrutura centralizada consolidou o controle dessas figuras sobre o Carnaval carioca, garantindo que sua influência se mantivesse ao longo dos anos.
Herdeiros e a continuidade do legado
Atualmente, herdeiros da cúpula do Jogo do Bicho, muitos com a ficha limpa, continuam a desempenhar papéis de destaque no Carnaval carioca. Marcelo Calil Petrus Filho, neto de Antônio Petrus Kalil, o Turcão, assumiu o comando da Viradouro em 2017. Cátia Drummond, filha de Luizinho, chefia a Imperatriz Leopoldinense, enquanto Luiz Guimarães se tornou presidente da Vila Isabel em 2022, aos 24 anos. Gabriel David, herdeiro de Anísio, é presidente da Liesa desde 2024, demonstrando como a influência dos bicheiros persiste através das gerações.
Essa intrincada relação entre crime organizado e cultura popular revela uma faceta complexa do Carnaval carioca, onde a linha entre entretenimento e contravenção muitas vezes se torna tênue, moldando não apenas os desfiles, mas também a própria identidade da folia mais famosa do Brasil.